Mostrar mensagens com a etiqueta Cinecittà. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinecittà. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, abril 04, 2007

Cinecittà (3)

Gillo Pontecorvo - La battaglia di Argeli (1966)
Nos anos 50 e 60 a produção cinematográfica italiana era prolífica. Na Europa, os estúdios da Cinecittà eram os que mais filmes faziam chegar às salas de cinema. A variedade e a qualidade eram diversificadas. Abrangiam-se todos os grandes géneros e públicos. O contraste é notório com o incipiente panorama actual. Esse passado brilha com fulgor. Tanto, que qualquer síntese da história do cinema reserva lugar destacadíssimo para o neo-realismo italiano (anos 40 e 50), exalta o melhor do western spaghetti (anos 60 e 70, p. ex. Sergio Leone), não ignora a melhor comédia (anos 50, 60 e 70) e regista o impacto comercial de variados géneros populares (anos 50 e 60). Contudo, no que diz respeito à produção de qualidade, existem filmes que podem não ser tão facilmente detectados, já que não são enquadráveis nos géneros reconhecidos. É o caso deste. Aparentemente, seria mais lógico como produção francesa, atendendo ao género e tema.
O género é docudrama de guerra com implicações políticas. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um óptimo exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico bem conhecido. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um declarado empenhamento político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos). Aliás, o filme é uma co-produção entre uma companhia italiana e uma entidade argelina governamental. Dir-se-ia, portanto, reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Não se pode dizer que não o seja, porém, não deixa de ter grande valor e tal sucede porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, sobretudo, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes comuns levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ostensivamente ao famoso Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, sublinhe-se, que o filme evita limitar-se a um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou na vitória francesa. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. É provável que, com um apoio político mais consistente na metrópole, o fatalmente não fosse assim tão fatal... Contudo, um dado essencial se retira do filme: a empedernida cegueira dos pieds-noires teria que deitar tudo a perder fosse como fosse... Algo que não se pode entender sem perceber, tal como o filme constantemente atira à cara do espectador, que a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num autêntico apartheid. Somos constantemente levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mente e forma de vida do pied-noir. O contraste é, só por si, intrinsecamente violento. É um cenário de tragédia sem solução racional, que é ainda mais negra vista dos nossos dias, sabendo a triste sorte de uns e de outros. Na Argélia, como em muitas outras colónias em transe descolonizador, deitou-se tudo a perder e ficaram todos as perder. Aqui as perdas foram ainda maiores. A seriedade de Gillo Pontecorvo permite uma aproximação objectiva à tragédia, sem hipotecar a sua perspectiva ideológica. Brilhante!

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Info IMDb

segunda-feira, março 26, 2007

Cinecittà (2)

Dino Risi - I mostri (1963)
Entre meados dos anos 50 e meados dos anos 70 a comédia italiana conheceu um tempo de esplendor. Se bem que abrangendo filmes de tipos diferentes, há o que se pode designar como um estilo comum reconhecível entre os seus melhores produtos. A ironia amarga, às vezes mesmo cruel, a denúncia da hipocrisia e a atenção aos temas sociais são alguns dos seus atributos. Raras vezes o riso deixa de ter implicações sociais. Compreende-se que assim seja não só por razões culturais, mas também pelo facto da maioria dos realizadores terem preocupações de carácter político, já que eram de esquerda, e muitos tinham algum tipo de vinculação com o PCI.
Um tipo de filmes que a comédia italiana desenvolveu foi o de sketches ou segmentos independentes. Este agora editado em DVD é um dos mais conhecidos. Contudo, só agora o pude ver ao contrário daquele que se pode designar como o seu remake, Nuovi mostri, realizado mais de dez anos depois e que vi logo na altura. O termo remake deve aqui ser tomado em sentido amplo, já que as histórias, se bem que partilhando o mesmo espírito, são totalmente diferentes e a realização, que no primeiro está exclusivamente a cargo de Dino Risi, passa a ser partilhada entre Dini Risi, Mario Monicelli e Ettore Scola. Ao contrário da crítica, pois, tendo eu feito um percurso inverso, entendo que o original fica aquém do remake... Contudo, vale a pena ver.
Inevitavelmente segui um critério comparativo com Nuovi mostri. O espírito é o mesmo, a concretização é que é distinta. Assim, a ironia é mais subtil e em muitos dos seus 20 sketches é tão subtil que se torna desconcertante. Um bom exemplo é a do mini sketch que dá título ao filme: o monstro, a criatura aprisionada que acabara de matar os seus próprios filhos, é, para efeitos de foto, inverosímil enquanto tal, apertado entre dois polícias de expressão alarve e contentamento grotesco por usufruírem de algum protagonismo (ver foto em baixo). É neste registo de subtilezas que a maior parte das sequências se desenvolve. O riso é, portanto, sempre discreto e, sobretudo, amargo, profundamente amargo. Ao ver uma segunda vez fui-lhe tomando mais o gosto, na medida em que ao distanciar-me do maior grau de imediatismo de Nuovi mostri, fui ganhando capacidade para o desfrutar. Em todo o caso, há pelo menos três sketches que são brilhantes:
Come un padre, Che vitaccia! e L'oppio dei popoli. Há ainda que sublinhar a presença dominate de dois grandes actores: Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi.

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Cinecittà (1)

click to comment
Vittorio de Sica - Ladrões de Bicicletas (Ladri di biciclette) (1949)
Finalmente têm surgido edições em DVD de cinema italiano, incluindo grandes clássicos do neo-realismo. Este filme é, reconhecidamente, um dos maiores estandartes do neo-realismo. Os seus méritos têm sido abundantemente salientados. Contudo, há um aspecto que merece ser mais salientado: poucos filmes retrataram de modo tão intenso uma relação entre pai e filho. Também esta relação é apresentada de modo realista, mas, nem por isso, deixa de ser profundamente emotiva. Como já alguém comentou, A vida é bela - um dos ícones mais recentes do cinema italiano, da chancela de Roberto Benigni - demonstra, em comparação com esta filme, como o cinema se infantilizou...
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Info IMDb