
Gillo Pontecorvo - La battaglia di Argeli (1966)Nos anos 50 e 60 a produção cinematográfica italiana era prolífica. Na Europa, os estúdios da Cinecittà eram os que mais filmes faziam chegar às salas de cinema. A variedade e a qualidade eram diversificadas. Abrangiam-se todos os grandes géneros e públicos. O contraste é notório com o incipiente panorama actual. Esse passado brilha com fulgor. Tanto, que qualquer síntese da história do cinema reserva lugar destacadíssimo para o neo-realismo italiano (anos 40 e 50), exalta o melhor do western spaghetti (anos 60 e 70, p. ex. Sergio Leone), não ignora a melhor comédia (anos 50, 60 e 70) e regista o impacto comercial de variados géneros populares (anos 50 e 60). Contudo, no que diz respeito à produção de qualidade, existem filmes que podem não ser tão facilmente detectados, já que não são enquadráveis nos géneros reconhecidos. É o caso deste. Aparentemente, seria mais lógico como produção francesa, atendendo ao género e tema.
O género é docudrama de guerra com implicações políticas. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um óptimo exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico bem conhecido. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um declarado empenhamento político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos). Aliás, o filme é uma co-produção entre uma companhia italiana e uma entidade argelina governamental. Dir-se-ia, portanto, reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Não se pode dizer que não o seja, porém, não deixa de ter grande valor e tal sucede porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, sobretudo, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes comuns levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ostensivamente ao famoso Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, sublinhe-se, que o filme evita limitar-se a um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou na vitória francesa. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. É provável que, com um apoio político mais consistente na metrópole, o fatalmente não fosse assim tão fatal... Contudo, um dado essencial se retira do filme: a empedernida cegueira dos pieds-noires teria que deitar tudo a perder fosse como fosse... Algo que não se pode entender sem perceber, tal como o filme constantemente atira à cara do espectador, que a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num autêntico apartheid. Somos constantemente levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mente e forma de vida do pied-noir. O contraste é, só por si, intrinsecamente violento. É um cenário de tragédia sem solução racional, que é ainda mais negra vista dos nossos dias, sabendo a triste sorte de uns e de outros. Na Argélia, como em muitas outras colónias em transe descolonizador, deitou-se tudo a perder e ficaram todos as perder. Aqui as perdas foram ainda maiores. A seriedade de Gillo Pontecorvo permite uma aproximação objectiva à tragédia, sem hipotecar a sua perspectiva ideológica. Brilhante!
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O género é docudrama de guerra com implicações políticas. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um óptimo exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico bem conhecido. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um declarado empenhamento político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos). Aliás, o filme é uma co-produção entre uma companhia italiana e uma entidade argelina governamental. Dir-se-ia, portanto, reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Não se pode dizer que não o seja, porém, não deixa de ter grande valor e tal sucede porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, sobretudo, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes comuns levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ostensivamente ao famoso Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, sublinhe-se, que o filme evita limitar-se a um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou na vitória francesa. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. É provável que, com um apoio político mais consistente na metrópole, o fatalmente não fosse assim tão fatal... Contudo, um dado essencial se retira do filme: a empedernida cegueira dos pieds-noires teria que deitar tudo a perder fosse como fosse... Algo que não se pode entender sem perceber, tal como o filme constantemente atira à cara do espectador, que a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num autêntico apartheid. Somos constantemente levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mente e forma de vida do pied-noir. O contraste é, só por si, intrinsecamente violento. É um cenário de tragédia sem solução racional, que é ainda mais negra vista dos nossos dias, sabendo a triste sorte de uns e de outros. Na Argélia, como em muitas outras colónias em transe descolonizador, deitou-se tudo a perder e ficaram todos as perder. Aqui as perdas foram ainda maiores. A seriedade de Gillo Pontecorvo permite uma aproximação objectiva à tragédia, sem hipotecar a sua perspectiva ideológica. Brilhante!
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