domingo, dezembro 31, 2006

American dream (7)

David Frankel, Tom Hanks, David Leland, Richard Loncraine, David Nutter, Phil Alden Robinson, Mikael Salomon, Tony To - Irmãos de armas (Band of brothers) (2001)

Em todas as épocas o pacifismo tem sido, geralmente, um perigo. Sucede que, em muitas circunstâncias, é, objectivamente, um incentivo à guerra. A violência está na natureza humana e não se deve ignorar o facto. São algumas das ideologias que encaram a possibilidade da guerra e fomentam a preparação activa para tal, que melhor contribuem para as evitar ou minimizar.
Nos Estados Unidos o pacifismo nunca teve força, excepto quando, nos anos sessenta, se desenvolveu um vasto movimento juvenil contra a Guerra do Vietname. Para além do facto de, em vários sectores na sociedade norte-americana, imperar, inclusivamente, o que se pode designar como uma cultura de violência (facto, obviamente, muito negativo), a verdade é que a disposição dos Estados Unidos para a guerra tem sido uma benesse para a humanidade. Basta pensar que sem a sua intervenção a agonia da Grande Guerra de 1914-18 ter-se-ia prolongado e que, na II Guerra Mundial, o nazismo não teria sido derrotado; que, no final da Guerra Fria, graças à sua capacidade de dissuasão militar o comunismo não teria sido derrotado; que, hoje em dia, nos encontraríamos ainda mais indefesos frente ao megaterrorismo islâmico.
Esta série televisiva, da HBO, luxuosamente editada em pack DVD, lembra-nos como foi decisiva a participação norte-americana no desenlace da II Guerra Mundial. Como quase sempre sucede, muito do que de bom passa na televisão escapa-me. Felizmente, que de forma inesperada acabei por ver a edição em DVD. Deve-se salientar a qualidade técnica irrepreensível, a todos os níveis. Contudo, o mais importante é que mostra de uma forma extremamente realista o que é a guerra. Neste particular, só conheço um precedente com tal grau de rigor, O resgate do soldado Ryan. Para quem teima ignorar o que é essa realidade, talvez seja adequado uma imersão nesta série. Note-se que se baseia em histórias verídicas, que ocorreram com uma divisão de elite das forças aerotransportadas em cenários de guerra europeus (Normandia, Holanda, Bastogne, Hagenau...). Tanto assim é, que há o cuidado da ficção nunca se desprender de um tom de documentário - algo que é evidente, por exemplo, com a integração dos depoimentos de veteranos combatentes, que, em cada episódio, começam por fazer uma introdução. Finalmente, registe-se que a série é dirigida por distintos realizadores, entre os quais figura Tom Hanks. Cada um imprime um estilo um pouco diferenciado de episódio para episódio, o que, dado o formato em questão, é pertinente e enriquecedor. De notar, finalmente, que a página web da série constutui um autêntico guião histórico complementar (hiperligação em baixo). Produtos como este são uma verdadeira lição de história - um memorial em honra de todos aqueles que com extrema coragem e sacrifício lutaram e morreram pela liberdade!

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domingo, dezembro 24, 2006

Il bel paese (8)

Palermo - Postais (finais dos anos 40)

sábado, dezembro 16, 2006

Dancing Days (15)


Elton John & Kiki Dee - Don't go breaking my heart (1976)
É usual subvalorizar a música dos anos 70, sobretudo em comparação com os anos 60, mas também em comparação com os 80. São expeditamente tratados como os anos em que emergiu a música disco, sendo isto como que uma espécie de pecado identificador de toda uma década. Se é um facto que os anos 70 vêem emergir a música de discoteca, este facto, em si, não é mais do que o cumprimento de um natural destino da música popular de todos os tempos, que não é, nem nunca foi, contraditório com qualidade. Por outro lado, este juízo pode fazer esquecer que foram os anos 70 aqueles em que a música pop/rock atingiu o apogeu, sob o ponto de vista de penetração no mercado e implantação nos meios de comunicação. Este espectacular tema de Elton John e Kiki Dee será para sempre um exemplo de um tema pop. Simples, dançável e trauteável! Na verdade, muitas vezes, quando a música pop se arma em algo de muito especial e transcendente, estraga tudo... Os seus limites e o seu brilhantismo vêm inexoravelmente de uma receita simples aplicada a um dispositivo de três minutos, assente em ritmo e melodia, onde o refrão é uma bandeira erguida bem alto.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Noites tropicais (13)

Roberto Carlos - Amigo (1977)
Desde há muito que a carreira de Roberto Carlos se desenvolve em trâmites rotineiros. Um álbum de originais, cujo título é tão-só o nome do cantor, e um programa especial na Rede Globo cada ano, sempre pela mesma altura. Volta e meia enceta uma digressão. Contudo, para os mais atentos, é visível a existência de fases bem marcadas, só que a evolução que as traçou foi acompanhando a natural evolução das gerações que constituíram o seu público e deu-se sem rupturas. Assim, o rocker rebelde dos anos 60 deu lugar, quase sem se dar por isso, ao místico artífice de hinos religiosos dos anos 70. Paulatinamente, chega aos 8o, consolidado na condição de cançonetista clássico que abarca vários estilos enquadráveis nos gostos convencionais dos públicos mais maduros. A descrição desta evolução não pode, porém, deixar passar em branco o facto de, pontualmente, ter lançado êxitos de vendas que excederam o volume médio garantido de vendas apreciáveis. O caso mais notório foi, nos finais da década de 70, Amigo, tema dedicado a Erasmo Carlos, seu dilecto companheiro de composição (Veja-se o video que ilustra eloquentemente a sua natureza de dedicatória). Este foi, talvez, o maior êxito de toda a sua carreira, pelo menos em número de vendas excedeu certamente os míticos êxitos dos anos 60.

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Noites tropicais (12)

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Roberto Carlos - Roberto Carlos em ritmo de aventura (1967)
Este álbum é um dos mais representativos da fase inicial de Roberto Carlos. Corresponde ao filme homónimo que foi um dos marcos que assinalou a explosão do fenómeno Roberto Carlos como expoente da jovem música brasileira nos anos sessenta. Ele representou para o Brasil (e não só...) o que os Beatles representaram para o mundo. Teve impacto com a imagem de jovem rebelde e com a música rítmica onde imperavam as guitarras eléctricas e o órgão Hammond. Tinha ainda uma voz e uma pose que, seguindo os padrões do rock & roll, era uma receita que arrasava por todo o lado.
Para mim este álbum ficará sempre ligado a um São João do Porto, tinha eu dez ou onze anos. Por todo o lado se ouvia o grande êxito Quando, em especial naqueles bailaricos dos largos e recantos, onde as populares rusgas se detinham ou formavam. Por estranho que possa parecer, é e será sempre, para mim, a música emblemática do São João do Porto, quando o martelinho de plástico ainda não se tinha imposto ao alho porro e à ramalhosa...
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Roberto Carlos - Quando in Roberto Carlos em ritmo de aventura (1967)

Tiro ao Alvo (16)

O livro de Carolina

Em boa verdade, as revelações de Carolina não acrescentam nada ao que já se sabia. Há muitas calúnias, mentiras, meias verdades e exageros. Mas há, certamente, algumas realidades que não se podem, nem devem ignorar, sobretudo pelos que, como eu, são orgulhosos da sua condição portista. Torna-se cada vez mais visível que Jorge Nuno Pinto da Costa foi decisivo e indispensável na ascensão e consolidação do FCP, mas perdeu brilho nos últimos anos. Sabe-se que nunca foi, nem pretendeu ser, um modelo de virtudes. Para os adeptos, o que sempre interessou foram as suas capacidades de líderança, cujos resultados transcenderam tudo o que se poderia imaginar e que jamais algum dirigente desportivo conseguiu alcançar. Todos os portistas, lhe estarão eternamente gratos. Tem um lugar à parte na história do clube. Contudo, não há personagens isentos de defeitos e Jorge Nuno Pinto da Costa é uma moeda de duas faces. Na menos brilhante inserem-se algumas práticas de "não olhar a meios para atingir fins". Acredito que entre meados de 80 e meados de 90 tivesse havido algum manejo de bastidores, em que se tentou influenciar a arbitragem e que isso deu alguns frutos, embora, nem pouco mais ou menos aqueles que, em típico delírio de inveja, foram e são esgrimidos... Nesse tempos, e dadas as circunstâncias, era compreensível. O futebol português era um mundo à margem. Entre influências institucionais vindas de um longo passado e pequenos jeitos para amigos, que sempre caracterizaram uma sociedade com uma matriz mental de manhas e expedientes camponeses, quem renunciasse a essas vias seria um tolo. Nesse contexto, tais manejos eram compreensíveis. Será necessário um pesado facciosismo ou, mesmo, alguma má-fé para não reconhecer que os outros só não o fizeram com eficácia, não por renegarem os métodos, mas por incompetência. O essencial é que, numa estratégia que incorporou tais práticas, se construiu a base para uma boa equipa de futebol, dentro das quatro linhas. A sua legitimidade não foi menor do que aquela que havia na base de amparo institucional para o Sporting dos 5 Violinos ou o Benfica de Eusébio. Seja como for, insisto, construiu-se a estrutura para o melhor futebol efectivamente jogado em Portugal e com projecção internacional.
Os tempos mudaram, evoluíram. Descontado o oportunismo das frustradas legiões de adeptos sportinguistas e benfiquistas, as exigências éticas foram crescendo. A persistência de tais práticas, pela força da rotina e do vício, tornou-se um inconveniente excesso de zelo. Nada trouxe de bom, sob nenhum ponto de vista, desde há uma década para cá. Nos últimos anos, entre os três grandes, o FCP é o relativamente menos beneficiado pelas arbitragens. Temerosos por serem associados a tais práticas, os árbitros, in dubio, decidem contra as cores azuis e brancas. Contudo, Jorge Nuno Pinto da Costa tem dificuldade em exercer de timoneiro sem esse modus operandi e, além do mais, certos males de um ego desmedido têm vindo a agravar-se. O livro de Carolina é o resultado destes dois factores.
Seria absurdo imaginar que a nação benfiquista seguisse o velho princípio imperial: "Roma não paga a traidores". Pelo contrário, esse universo plebeu recompensa, com entusiasmo pueril, os traidores. De certa fora, é a metáfora do país que temos, acrisolado na inveja. Imaginam o seu rival com depositário de todos os defeitos mafiosos, porque não aguentam a evidência do mérito das suas glórias. Afadigam-se em encontrar a chave do segredo, exclusivamente nos terrenos mais pantanosos, mas as tentativas de encontrar um padrinho superior têm sido grotescas e algumas, como o fenómeno Vale e Azevedo, trouxeram vexames inomináveis.
Pelo seu lado, a aristocracia de Alvalade insiste em proclamar as suas virtudes num processo que desde há muito consolidou uma cultura de derrota, servida por um exemplar espírito calimero.
Dois tipos distintos de medíocridade instalaram-se e criaram raízes na Segunda Circular. Na Invicta, criadas as indispensáveis estruturas que, em devido tempo, permitiram as condições para as vitórias internas, instalou-se um futebol competitivo e susceptível de proporcionar qualidade dentro das quatro linhas, conquistando glórias na Europa e no mundo. Para os portistas, evidentemente, há que preservar este estado de coisas, mas para os mais lúcidos, como Miguel Sousa Tavares, chegou a hora de dizer que, para tal, talvez seja preciso que o tempo de Jorge Nuno Pinto da Costa acabe. Entre os portistas que se discuta serenamente tal questão. Quanto a outros, pois que continuem a pagar a traidores. Vão longe!

terça-feira, dezembro 12, 2006

Viagens (15): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (5)

4º Dia (3ª Feira / manhã)

Para este dia estava planeada uma visita a San Gimignano e Siena. Na Hertz diligenciei o aluguer de uma viatura. O que é que haveria de calhar em sorte? ...Pois, mais um Ford Ka.
A estrada que vai até Siena não sendo propriamente uma auto-estrada, tem faixas separadas, com óptimo piso e não tem portagem. A paisagem toscana está repleta de colinas e é verdejante. Vêm-se muitas casas de quintas. A natureza é ao mesmo tempo exuberante e civilizada. Predominam vinhedos e bosques.
Passei por Poggibonsi, cidadezinha de 20.000 habitantes, com ar próspero. É um dos centros de produção do vinho Chianti. Logo a seguir, consegue-se divisar ao longe San Gimignano, com as suas treze torres. Está no cimo de uma colina, amuralhada. A invasão turística que assolava Florença estendia-se até aqui, produzindo, desde logo, dificuldades para estacionar em qualquer um dos terreiros no exterior da muralha. Não há cidade fora da muralha e lá dentro todas as casas são medievais. Nem Óbidos consegue ter um aspecto tão homogéneo e coerentemente antigo, embora esta cidade seja maior, mais populosa e mais visitada, talvez, numa escala de dez vezes mais... As tais torres, são de palácios aristocráticos e sugerem-nos aquela Toscana medieval onde imperavam rivalidades entre cidades, príncipes e condottieri. Aqui, nesse passado convulso, cada nobre pretendia suplantar o nobre vizinho pela altura da sua torre. Este espírito puerilmente vaidoso é, ao fim e ao cabo, o mesmo que esteve na base do mecenato. É claro que o resultado atenta contra todas as noções de harmonia e proporção, mas não deixa de ser pitoresco. Algures antes dos finais da Idade Média, San Gimignano parou no tempo. O esplendor das vizinhas Florença e Siena determinaram o seu estertor. Apenas se manteve uma activa produção vinícola. Assim chegou aos nossos dias esta anacrónica pérola medieval. Renasce agora em função do turismo.
Estava um calor ainda mais insuportável que o nos dias anteriores. À hora de almoço, encontrei refúgio numa loja com ar condicionado, que vendia sanduíches e proporcionava ao mesmo tempo mesas e bancos para se comer. Assim, nesta espécie de self service rústico acabei por comer e, muito bem, ademais por um preço que, em Itália, é magnífico. Entre outras coisas, foi-me apresentada a mais popular cerveja italiana, a Moretti, assim como a Broschetta, que consiste numa fatia de pão frito com tomate e mais alguns condimentos.

Viagens (14)

Condé Nast Traveler, Nov 2006: Top ten cities Europe
O número de Novembro da revista norte-americana de viagens Condé Nast Traveler divulgou listas do que, segundo os critérios próprios, é o melhor em diferentes itens de viagens e turismo. Eis aqui o top ten das cidades europeias:

1 Florença 86,8
2 Roma 85,0
3 Veneza 82,9
4 Istambul 81,3
5 Paris 80,8
6 Barcelona 79,7
7 Siena 79,6
8 Bruges 78,3
9 Londres 78,3
10 Viena 78,1

sábado, dezembro 09, 2006

Tiro ao Alvo (15)

Stephen Frears - The Queen (2006)

Vivemos tempos democráticos, em que o povo é servido à medida dos seus gostos por uma indústria mediática. Esta esmera-se em dar-lhe ídolos e sensações fortes. A Princesa Diana foi um desses ídolos. A sua morte foi uma oportunidade para um prato bem servido de sensações fortes. Este filme aborda o modo como a família real britânica, e muito em especial, a rainha, lidaram com as vagas altas dessa indecorosa exploração. Oferece ocasião para reflexões em diferentes sentidos: não só sobre a histeria sensacionalista do vigente império mediático, mas também sobre a natureza e o carácter da instituição monárquica e sobre o que efectivamente vale a democracia actual, por exemplo. Quem é avesso ao reconhecimento da valia das instituições monárquicas poderá ter aqui uma lição - no mínimo dos mínimos, pode ser um contraponto à vulgaridade imperante, ou seja esta mistela de plebeísmo e individualismo hedonista servida em doses maciças de superficialidade e falta de valores substantivos. Mas, não é difícil ir mais longe e perceber como a instituição monárquica pode deter um valor simbólico agregador dos valores históricos identitários da comunidade.
Fazer um filme como este não foi tarefa fácil. Pôr em cena personagens vivos que permanecem na ribalta, ainda por cima da talha da própria rainha ou do primeiro-ministro Tony Blair, requer coragem e suma habilidade. Stephen Frears sai-se bem da façanha. Se para tal tem o decisivo contributo da actriz Helen Mirren (candidata ao óscar de melhor actriz), na verdade também não deixa de ter uma boa ajuda por parte de Michael Sheen, como Tony Blair. Lidar com um argumento como o que serve de base a este filme é, logo à partida, um exercício de atrevimento que define a capacidade de um realizador.

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sexta-feira, dezembro 08, 2006

Tiro ao Alvo (14)

Vacas e automóveis
Li há alguns dias num jornal uma curiosa notícia, cujo sentido pode ser traduzido, sem grande exagero, da seguinte forma expressiva: Imagine-se um cenário campestre, bucólico, composto por vacas a pastar num verde prado. Imagine-se agora a hedionda IC19 num início de manhã de dia útil, algures entre Cacém e Queluz, atascada num costumeiro engarrafamento automóvel. Pois fique-se sabendo, que a primeira imagem corresponderá, provavelmente, a uma situação mais danosa para o chamado equilíbrio do meio ambiente e um contributo mais efectivo para o aquecimento global do planeta! Efectivamente, a libertação de metano produzida pelo gado, e particularmente por aquele que é mais dado a manifestações aerofágicas, como parece ser o caso do gado vacum, constitui uma ameaça maior que o CO2 libertado pelos tubos de escape. Assim, talvez se justifique mais um acto de contrição no momento em que se coma mais um iogurte do que no momento em que se gire a chave de ignição para arrancar com o automóvel… Parece que a fonte é uma revista científica e, parece, inclusivamente, que para os organismos internacionais dedicados ao estudo deste tipo de problemas, isto não é propriamente um segredo…. O que se passa é que por razões de ordem política e pela histeria sensacionalista em que os media vivem, constituiu-se um poderoso filtro, que não só selecciona a informação em função de uma percepção dominante, como, de algum modo, induz opções políticas (cada vez mais cativas da popularidade mediática) que forçam a adopção de prioridades erradas de investigação junto da comunidade científica. Algo, enfim, que o dinamarquês Bjørn Lomborg tem vindo a denunciar, em particular na sua obra The Skeptical Environmentalist (2001).
Não consegui encontrar on-line o artigo em questão, o qual, julgo, ter lido no Público. Contudo, uma simples pesquisa no Google conduziu-me a este artigo, Vacas contaminantes, o qual aborda o mesmo problema.

sábado, dezembro 02, 2006

Il bel paese (7)

Genova, Portofino, Paraggi, Camogli, Santa Margherita Ligure in L'Italia dal cielo (2005)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Il bel paese (6)

Lago Maggiore: Stresa / Isole Borromee in L'Italia dal cielo (2005)

Il bel paese (5)

L'Italia dal cielo (2005)
Desde que em meados dos anos 80 a RTVE produziu a monumental série A vista de pájaro, foram surgindo em Espanha sucessivas séries análogas, mas de âmbito ainda mais detalhado, focando especificamente diversas regiões. Têm vindo a ser realizadas por iniciativa, ou com a participação, de emissoras televisivas autonómicas. Hoje em dia, a Espanha é uma referência para esse tipo de documentários.
Sempre ambicionei encontrar documentários do mesmo género referentes a outros países, muito em particular, em relação à Itália. Que melhor matéria se poderia ter do que as paisagens italianas? Finalmente encontrei e acedi a esta série, editada em 3 DVDs. Note-se que é a versão italiana de uma produção originariamente norte-americana.
Depois de a ver, deixa-me sensações contraditórias. Como seria de esperar, as belas paisagens naturais e citadinas sustentam um produto notável. Sucede ainda que a qualidade técnica é excelente, com imagem de alta definição. Os textos cumprem adequadamente com a sua função. A locução e a música estão a um nível igualmente adequado. Contudo, fiquei com um sabor próprio de um magnífico aperitivo, mas como que privado do resto da refeição... O problema traduz-se simplesmente da seguinte maneira: Como meter a Itália toda em 3 horas e 45 minutos? Muita, muita coisa tem que ficar de fora e em quase todos os sítios por onde se passa a passagem é demasiado superficial. Dois exemplos: nada sobre Milão ou Turim! Habituado que estou ao detalhe das produções espanholas, aguardarei que um dia surjam produções de nível idêntico para a Itália. Para já saboreio este aperitivo.

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terça-feira, novembro 21, 2006

Cuore matto (11)

Mina - Ancora, ancora, ancora (1978)
Este vídeo ilustra, ao que parece, a última aparição televisiva de Mina, algures nos finais dos anos 70. É uma transbordante manifestação de sensualidade e poderio interpretativo. Apesar da amostra aqui presente estar truncada (pela duração abruptamente encurtada e pelo desfilar do genérico), é um testemunho incrível - um autêntico desplante da artista, que dir-se-ia estar no limiar do descontrolo. Veja-se como, num arrebatamento de impetuosa gestualidade (que lhe era, aliás, comum), a páginas tantas enceta uma desconexa batalha com o cabelo, que resulta num desenlace sem solução de continudade. Nesse impasse, expeditamente retoma a desenvoltura com um sorriso trocista... É um vulcão de eruptiva sensualidade. Comparado com isto, os exibicionismos de madonnas e outras divas de pacotilha do actual pop mainstream, mais não são do que insonsas imposturas pronto-a-vestir de marketing para o povinho...
Para ser visto (e idolatrado!) ancora, ancora, ancora... sempre ancora.

Cuore matto (10)

Ornella Vanoni - A un certo punto... (1974)
O ano de 1974 é particularmente notável na carreira discográfica de Ornella Vanoni. Apenas uns meses antes de La voglia di sognare, havia surgido este álbum, A un certo punto.... São os dois muito bons. Neste, descontado o último tema - versão do alegre tema de Caetano Veloso, Chuva, suor e cerveja - há uma nuvem de suavidade que perpassa por todo o álbum. É algo que esbate os conteúdos fortes, modulando a expressão das emoções. Sucedem-se as canções de amor tocadas pela melancolia. Bela melancolia, diga-se, iluminada por laivos de dramatismo contido... É um dos registos em que os dotes de Ornella mais sobressaem. Para completar, as canções são de boa colheita compositora e os arranjos orquestrais são um primor. Enfim, é maais um momento alto do cançonetismo italiano.

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Ornella Vanoni - Prime ore del mattino in A un certo punto... (1974)


Ornella Vanoni - Il continente delle cose amate in A un certo punto... (1974)

Cuore matto (9)

Ornella Vanoni - La voglia di sognare (1974)
Um pouco em contra-tendência, nos anos 70 a canção italiana atinge a sua plenitude. É um facto que o Festival de San Remo estava cada vez mais longe do esplendor da década anterior, mas, em contrapartida, a produção discográfica utiliza meios de produção mais modernos, incorporando alguns elementos oriundos do pop/rock. A generalizada perda de importância do cançonetismo, em Itália, traduz-se, assim, mais no plano quantitativo e, eventualmente, comercial, do que no plano substantivo da qualidade. É o que se passa com Ornella Vanoni.
O álbum La voglia di sognare é um produto consistente, que consegue fazer sobressair as qualidades interpretativas de Ornella Vanoni, com um conjunto de canções que, através de uma linha melodiosa homogénea, suscitam o desempenho da sua sensibilidade interpretativa. O repertório até é variado, abrangendo duas versões de temas franceses e uma versão de um tema brasileiro, sendo os oito restantes temas inéditos e consagrados de autores italianos. O valor do conjunto é elevado, mas o destaque vai para Un mondo di più, de Lucio Dalla e Sergio Bardotti - um sugestivo tema de amor que prova como a voz de Ornella pode ser insinuante e quente...
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Ornella Vanoni - Un mondo di più in La voglia di sognare (1974)

Cuore matto (8)


Grande senhora da canção italiana, Ornella Vanoni é quem mais tem sustentado um estatuto de paridade em relação a Mina. Entre os fans de ambas (gente já com idade para ter juízo...) há um longo passado de rivalidades, um pouco à maneira do que ocorria cá, nos anos 60, entre os fans de Madalena Iglésias e os de Simone, mas em ponto muito maior. A verdade é que, quer Ornella, quer Mina, cada uma no seu estilo, representam o melhor da música ligeira. Por mim, adoro as duas, reconhecendo, obviamente, que são muito diferentes. Em todo o caso, a disputa, se é que verdadeiramente existe, pode-se presumir no que diz respeito às respectivas páginas oficiais na Web. Neste particular, parece que se pretende não ficar atrás de Mina... Com efeito, no seu sítio oficial há um excelente grafismo, que se adequa ao seu estilo.

terça-feira, novembro 14, 2006

Memória do futebol (2)

Grandezas: delírios e realidades
A iniciativa do Benfica em se alardear como recordista mundial em número de sócios suscita-me alguns reparos. Ao contrário do que possa parecer, a iniciativa é mais uma demonstração da sua decadência na galeria dos grandes do futebol mundial. Perdida a glória de ser o clube português com melhor palmarés internacional e confrontado a nível interno com a perda da hegemonia, investe nestas glórias... Iniciativas de divulgação da sua grandeza na história do futebol seriam mais sensatas e pertinentes. Esta, na verdade, é uma glória patética, que assenta na efémera mobilização de sócios, um tanto ad hoc... Tão patética quanto, sendo, indiscutivelmente, o clube com maior número de adeptos, não conseguiu, nas últimas temporadas (mesmo naquela em que foi campeão) ter a liderança na média de assistências por jogo... Além do mais, isto parece ser uma consolação para o desfazer da quimera delirante dos 300.000 sócios... A massa crítica benfiquista, qual aristocracia decadente, parece entregar-se à fruição de delírios megalómanos...
O conceito de sócio é obsoleto para os grandes clubes mundiais. Bem mais significativo é, por exemplo, o número de abonados de pacotes de bilhetes por temporada ou competição, de compras de assistências televisivas de jogos em pay per view, ou, evidentemente, de assistências nos estádios. O conceito de sócio era algo decisivo nas velhas entidades clubísticas, nas quais a prática desportiva fazia parte da afirmação da identidade. Hoje, a nível de grandes clubes, essa realidade só persiste na América do Sul. E mesmo aí, advinha-se, já em crise...
Verdadeiro Ranking de grandeza (algo cruel, mas cada vez mais incontornável) é o que a empresa de consultadoria Deloitte vem fazendo nos últimos anos, ordenando os 20 clubes mais ricos do mundo em função dos seus rendimentos. Veja-se o último, relativo a 2005, in Deloitte (España). No que diz respeito a clubes portugueses, só esteve próximo da lista o FC Porto. Passou, episodicamente pelos 5 lugares adicionais (ou seja, entre o 21º e o 25º lugar), por força da campanha que lhe deu o título europeu e os correspondentes prémios financeiros. Tal sucedeu em 2004. Não há perspectivas razoáveis que possa voltar a suceder a curto ou médio prazo com um clube português.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Il bel paese (4)

Florença - finais dos anos 40

Viagens (13): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (4)

Viagem ao Norte de Itália (Julho/Agosto de 2001) 3º Dia

De manhã, ao sair do hotel, pude finalmente constatar aos encantos de Florença. A luminosidade e a ausência de fadiga permitia-me uma visão diferente. Deparei-me logo com a imponência do Palazzo Strozzi e com a igreja de Santa Maria Novella, que tem uma fachada onde sobressai o contraste entre as linhas entremeadas de cinzento claro e de cinzento escuro, o que se repete, aliás, em vários outros edifícios religiosos e laicos.
Um dos problemas que afectou a estadia foi a avalanche turística que me dissuadiu de engrossar as longuíssimas bichas para entrar em sítios fundamentais. Porém, ainda pior foi a onda de calor, com temperaturas máximas em torno dos 37º e mínimas que não desciam dos 23º. Florença foi protagonista desta vaga e os telejornais repetiam imagens de turistas banhando-se nas fontes.
A Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo) é um dos ex-libris da cidade. A grandiosidade da cúpula, de Brunelleschi, contrasta com a graciosidade das linhas de todo o edifício, em particular com a fachada e o Campanille (torre sineira). Há formas geométricas nos mesmos tons de Santa Maria Novella. Sempre tive queda pelos excessos barrocos, contudo, o classicismo florentino, nomeadamente o que se pode apreciar no Duomo, é de insuperável elegância, sem renunciar a pormenores decorativos. Ainda assim, o interior pareceu-me não estar à altura do exterior. O baptistério, edificado à parte (em Pisa também é assim), bem no centro da praça, é imponente. A Porta do Paraíso (Leste) atraía uma descomunal fila de turistas, cuja maioria, talvez, não soubesse estar perante uma réplica. O original está no vizinho Museo dell’opere del Duomo. Todo este conjunto monumental, visto de cima não deixaria de se assemelhar a torrões de açúcar atacados por um formigueiro. Os turistas são aqui uma completa amostra da humanidade - pude ver, por exemplo, uma excursão de turistas hindus.... Muitos faziam parte de grupos guiados que se embrenhavam por ruas esconsas. Mesmo em sítios aparentemente comuns paravam, banhados em suor, escutando o guia. Em boa verdade, qualquer recanto pode exalar história e a arte pode assaltar a partir de um qualquer saguão. Pouca coisa comum deve haver no centro de Florença... O vulgar turista, mesmo aquele que detém alguma sensibilidade para as coisas da arte e da história, corre o risco de enfartamento. Mas, não se pense que é uma cidade museu, no sentido, em que esteja desprovida de vida normal. Tem cerca de meio milhão de habitantes e um intenso tráfico adaptado às contingências de uma morfologia medieval. Contudo, note-se, que não se vislumbra em todo o centro um único edifício moderno! Este e outros sintomas denotam que a cidadania está orgulhosa do estatuto ímpar da sua urbe.
A Via dei Calzaiuoli é o eixo que atravessa o centro. Um pouco mais ampla que as restantes ruas, exclusivamente reservada a peões, vem desde o Duomo, passa perto da Piazza della Repubblica e desagua na Piazza della Signoria. A Piazza della Repubblica está composta por edifícios novecentistas, de linhas clássicas, ocupados por companhias de seguros. Está rodeada de cafés com esplanadas, onde os turistas são alegremente espoliados pelo consumo de um Cinzano ou de um gelato. A Piazza della Signoria é a ágora – o coração cívico. Impressionei-me quando lá cheguei e dei de caras com o ex-libris máximo, o Palazzo Vecchio e a sua torre comunale. Lá estão estátuas célebres como Perseu, de Benvenuto Cellini e, sobretudo, Davide, de Michelangelo. Mas, é evidente que são réplicas... Naquela manhã de primeira segunda-feira de Agosto, aquele lugar parecia palco de um quase tumulto, tal era a quantidade de turistas emocionados que tropeçam uns nos outros, de máquina fotográfica em riste. Com efeito, muita gente chega aqui com a emoção com que um muçulmano chega Meca. Perante a visão do Davide com a moldura do Palazzo Vecchio atrás, sente que cumpriu um desígnio superior – muitos não se contêm e tratam de utilizar o telemóvel para participar o evento a um algum ente querido distante. Para mim não foi muito distinta a sensação de atravessar a Ponte Vecchio, que até os nazis não tiveram coragem de bombardear... Todas as lojas da ponte, com uma única excepção, são ourivesarias. As montras ostentavam peças a preços inalcançáveis. Mas mais importante foi comprovar que dessa ponte mítica se pode apreciar um pôr de sol especial... Toda o dia foi ocupado em deambulações pedestres – é a única forma adequada de conhecer a cidade. Quando caiu a noite foi uma surpresa verificar que não havia gente na rua na quantidade que seria de esperar. Depreendi que em Itália há pouca animação exterior nocturna, sobretudo, atendendo às potencialidades dos espaços e ao que ocorre, por exemplo, em Espanha.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Tiro ao alvo (13)

Vasco Pulido Valente: A vida é um funil
São sempre saudáveis os banhos de lucidez que Vasco Pulido Valente proporciona aos seus leitores (neste caso, ouvintes):


Extracto da entrevista de Vasco Pulido Valente a Pessoal e Transmissível, de Carlos Vaz Marques. (TSF, 8 de Novembro de 2006).
Informação e ficheiro audio retirados de A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas.



segunda-feira, novembro 06, 2006

Memória do futebol (1)

Inglaterra, 1888
Estávamos em plena era da Rainha Vitória. O Império Britânico era ainda a principal potência imperial. No resto do mundo, para além da Mancha, não se fazia a mais remota ideia do que poderia ser o futebol. Contudo, em 1888, esta modalidade, derivação plebeia do rubgy, estabeleceu-se em Inglaterra como espectáculo profissional e organizado em campeonato de liga, por poule. Era um fenómeno circunscrito sob o ponto de vista social e geográfico, embora com crescente impacto. Dizia respeito à classe operária e a três regiões: Lancashire, West Midlands e East Midlands. Todas os clubes que inauguraram essa competição, em 1888, eram dessas três regiões. Não havia, por exemplo, nenhum de Londres. No essencial, permaneceu com esta configuração até à Grande Guerra (1914-18). Tornou-se o grande espectáculo proletário dos sábados à tarde. Os primeiros jogadores profissionais eram oriundos do operariado. A pouco e pouco as classes médias foram aderindo ao espectáculo, mas, até meados dos século XX, manteve-se como espectáculo essencialmente proletário. As classes mais elevadas mantiveram-se longe desse mundo - os seus desportos de equipa eram o cricket e o rugby.
Eis a classificação final dessa 1º edição da Liga (1888-89):

1 - Preston North End FC - 40
2 - Aston Villa FC - 29
3 - Wolverhampton Wanderers FC - 28
4 - Blackburn Rovers FC - 26
5 - Bolton Wanderers FC - 22
6 - West Bromwich Albion FC - 22
7 - Accrington FC - 20
8 - Everton FC - 20
9 - Burnley FC - 17
10 - Derby County FC - 16
11 - Notts County FC - 12
12 - Stoke FC - 12

Eram clubes de zonas fortemente industrializadas, quase todos inseridos nas conurbações de Birmingham e Liverpool-Manchester, estabelecidos em pequenas e médias cidades periféricas dessas grandes áreas. Dessas cidades, propriamente ditas, só encontramos dois: Everton (Liverpool) e Aston Villa (Birmingham), mas, é de notar, que ambos ostentavam nomes alusivos ao seu bairro, não à cidade. Curiosamente, os 3 últimos classificados são os únicos de fora dessas conurbações. O futebol nasce assim como fenómeno industrial, urbano e bairrista.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Noites tropicais (11) (3 remake)

João Gilberto - Amoroso (1977)
Alguém disse (foi José Nuno Martins no saudoso Os Cantores do Rádio) que este seria o melhor álbum de sempre da música brasileira. Sem abandonar o espírito da bossa-nova, João Gilberto fez aqui um exercício de sofisticação e cosmopolitismo. Sofisticação que decorre tanto da sua forma de cantar (mais sussurrante do que nunca) como dos voluptuosos arranjos de Claus Ogerman. Cosmopolitismo, porque interpreta três temas não brasileiros: 'S Wonderful, de Gershwin; Estate, de Bruno Martino; Bésame Mucho, de Consuelo Velázquez (já anteriormente o tinha gravado, mas de um modo bem mais convencional). O curioso é que a sua inépcia linguística é um must adicional - um italiano e um castelhano que soam assim divinamente adocicados! Estate alarga-se por seis minutos e meio, tornando-se aqui uma espécie de afrodisíaco para espíritos refinados. Com o famoso bolero a receita intensifica-se. A cadência lentíssima e aveludada alarga-o por quase nove minutos de puro êxtase. Mas se parece impossível superar o transe destas emoções, há que esperar até ao último tema, Retrato em Branco e Negro (Zingaro), de Tom Jobim. Está para além da perfeição!
Esta obra-prima foi gravada em finais 1976 e início de 1977, entre Nova Iorque e Los Angeles e parece ser o culminar de uma década e meia em que o gosto norte-americano se rendeu à bossa-nova.
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domingo, outubro 29, 2006

Extravagâncias (2)

Peter Webber - Rapariga com brinco de pérola (Girl with a pearl earring) (2003)

Desde logo, este filme assenta numa boa história - uma ficção construída em torno do enigmático quadro homónimo do pintor holandês Jan Vermeer. Não há bom filme sem boa história. Neste caso, a história, da escritora Tracy Chevalier, já fora um êxito como livro. O essencial começa, portanto, aqui. Contudo, há mais a destacar. Por exemplo, a fotografia (curiosamente, de um português, Eduardo Serra) consegue uma luminosidade adequada para a acção. Mais importante ainda são as interpretações, a começar pelas dos protagonistas, Scarlett Johansson (criada / modelo) e Colin Firth (pintor). A primeira compõe a figura da beleza nórdica por excelência, enriquecida por um registo de contenção, magistralmente acorde com o carácter do personagem que encarna. O filme proporciona algumas imagens construídas em torno do seu rosto, que são de invulgar beleza e constituem um paradigma já um pouco perdido nestes tempos em que a representação da beleza é geralmente alvo de interferências grosseiras... Com efeito, evitam-se os recursos demagógicos e o filme desenvolve-se por parâmetros de rigorosa castidade (não encontro melhor termo) no que concerne à relação entre pintor e modelo, nomeadamente na sua representação visual. Ou seja, não há nudez. Contudo, tal não obsta (bem pelo contrário...) a que, em muitas cenas, se instale a sensualidade. O interdito interiorizado pelos personagens centrais tem, assim, a sua coerente correspondência no que é dado a ver ao espectador.
Há ainda um aspecto que me seduziu: a reconstituição do ambiente da cidade de Delft, no terceiro quartel do século XVII. Os pormenores referentes ao vestuário, situações e lugares denotam rigor. É, portanto, também excelente como divulgação histórica, nomeadamente das condições de vida daquelas que eram, há cerca de 350 anos atrás, as populações com melhor nível de vida do mundo. Delft
(genuinamente holandesa) era, sem dúvida, um exemplo de opulenta cidade europeia desses tempos. E, no entanto, como era uma realidade rude comparativamente com a nossa, actual...
Uma nota final para referir que este filme foi distribuído em DVD, gratuitamente, pelo Expresso. Foi o último de uma série de oito DVDs. Foi uma insólita prenda proporcionada pela guerra dos semanários. Não deixa de ser bizarro que para enfrentar o aparecimento do Sol, se enveredasse por um táctica comercial tão extrema... Os leitores ficaram ganhar. Lástima foi eu não ter conseguido os dois primeiros.

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sábado, outubro 21, 2006

American dream (6)

Bob Dylan: Highway 61 revisited (1965)

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Pandora sample

domingo, outubro 15, 2006

American dream (5)

Martin Scorcese - Bob Dylan: No direction home (2005)
Martin Scorcese, um dos meus realizadores preferidos, dirigiu este documentário sobre Bob Dylan. Incide sobre o período que vai de 1961 a 1966 - o mais brilhante. O documentário parte desde os tempos que antecedem os primeiros passos no domínio da folk tradicional e chega até aos tempos em que está já plenamente instalado no universo rock. Perante os nossos olhos vai-se desenrolando a evolução de um jovem seduzido por um ídolo marginal (Woody Guthry), de um género tradicional (folk) até se tornar, ele mesmo, um ídolo de um género revolucionário (rock), que seduziu milhões de jovens por todo o mundo. Foi um percurso de contradições e tensões. Gerou polémica. Perdeu públicos e ganhou outros mais. O ponto de viragem foi a electrização da sua música. Relembre-se o sucesso dos seus primeiros álbuns: acústicos, profundamente marcados pela voz desgarrada e pela harmónica. Configuravam um lugar especial que estava na confluência do folk com o rythm & blues. Pois, de forma inesperada, a partir de certo momento, Dylan resolve intercalar esse registo com um outro, que à partida lhe era contíguo, só que transfigurado pela instrumentalização eléctrica. Mantendo o essencial, resolve incorporar o contributo do rock & roll. Tal, fazia sentido, em função da sua lógica de rebeldia juvenil, mas assinalava uma irreversível ruptura com o universo baladeiro, assolado pelo espírito da intelectualidade de esquerda que o benzera até então. A perplexidade de Pete Seeger perante uma das primeiras actuações eléctricas, no Festival de Newport (patenteada no documentário), ilustra tal reacção. O lastro de ressentimento que deixou em parte do seu público, particularmente aquele que o erigira num ícone político, patenteia-se de modo ainda mais eloquente nas reacções iradas que pontuaram os seus espectáculos na digressão pela Grã-Bretanha. Esses espectáculos aparecem, aliás, intercalados ao longo de todo o documentário. Situados no ponto final do período que abrange, é a partir deles que, em flashback, se vai percorrendo a sua carreira.
Dylan atinge a plenitude quando desfere a ruptura eléctrica. Os seus três melhores álbuns serão para sempre Bringing it all back home (1965), Higway 61 revisited (1965) e Blonde on blonde (1966). Neles, nunca chega a haver um abandono de temas acústicos, (muito menos do seu registo vocal e da harmónica!) mas, de forma progressivamente dominante, há a erupção rock. O mais emblemático é o segundo da tríade. Abre, com Like a rolling stone, onde está o trecho que Scorcese escolhe para título do documentário - um lema que sintetiza o espírito individualista dylaninano: No direction home. Na segunda parte do documentário há uma história sobre Like a rolling stone. Aí, o músico Alan Kooper, que tinha sido contratado pelo produtor Tom Wilson para as sessões de gravação como pianista, conta como acabou por protagonizar o mais decisivo contributo para a gravação desse tema, ao tomar conta dos teclados do órgão hammond. Tal ocorreu quando, por inesperada falta do organista, e durante uma temporária saída do produtor, resolveu inopinadamente mudar de teclas, em jeito de brincadeira. No regresso ao estúdio, o produtor interrogou-o, incrédulo, sobre o que fazia ele ali. Foi a expressiva complacência de Dylan que permitiu que a brincadeira continuasse... E pensar no que seria este tema sem aquela quente sonoridade que lhe presta o órgão hammond... Desde o primeiro acorde é esse o som mais carismático. Na música, como em muitas outras coisas da vida, os grandes achados têm muitas vezes explicações simplórias.
Por fim, quero notar que este documentário, ainda que editado há pouco tempo em DVD, passou já na televisão, concretamente, na RTP2, em duas noites consecutivas, no final do passado mês de Agosto.
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quarta-feira, outubro 11, 2006

Soulsville (9)

click to comment
Isaac Hayes - The Isaac Hayes movement (1970)
Este álbum sucede ao consagrado Hot Buttered Soul (1969) e, dado o carácter quase clandestino de Precious, precious (1968), é como se tivesse sido o segundo. Para mim, apesar de implantado em pleno apogeu da sua carreira, não é dos melhores. Tem quatro temas - o primeiro é extraordinário; o segundo é satisfatório; o terceiro é muito bom; o quarto é um falhanço. É, portanto, um álbum entre a genialidade e o fracasso. Mas a genialidade explode nos sublimes onze minutos e meio da versão de I stand accused, de Jerry Butler! Não conheço tema de amor mais deseperadamente triste e bonito! A primeira parte é um rap incrível (os Ike's raps foram os primeiros passos de um género posteriormente subvertido...). Mas este intróito e todo o desenvolvimento que conduz em crescendo até a um climax épico é algo que pertence à história do soul! Tudo o resto se torna irrelevante depois deste primeiro tema. O álbum poderia ter acabado aí... Poderia ser um insólito single, em que se teria que virar o disco para ouvir o resto de uma única longuíssima canção... Mas este comentário seria injusto para o magnífico I just don't know what to do with myself, standard de Bacharach & David submetido a um radical transformismo - tão bem-sucedido quanto um exercício análogo sobre o tema seguinte, o ultrafamoso Something de George Harrisson foi mal-sucedido. Mas voltemos ao genial I stand accused. Também é um exercício de radical transformismo ikesiano. A versão original era muito bonita, sem dúvida, mas Ike dá-lhe uma outra dimensão e densidade. Converte-a num hino! Esta é uma característica ímpar dos seus tempos de apogeu - quando faz uma versão, está, na realidade, a fazer uma outra música.
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Isaac Hayes - I stand accused in The Isaac Hayes movement (1970)

sexta-feira, outubro 06, 2006

Cuore matto (7)


Mina - Grande, grande, grande (1972)
Eis um video de Mina interpretando (em directo) o mítico Grande, grande, grande num daqueles saudosos programas musicais da RAI. Perante isto, só há que exclamar: Grande! Grande! Grande!

Cuore matto (6)

Romy Padovano - I Mille Volte di una Voce (1988)
Este livro é um album da iconografia de Mina, onde os artifícios fotográficos de Mauro Belletti são protagonistas. É um produto de italian design.
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Cuore matto (5)

Mina tem um sítio oficial com excelente desenho e repleto de todo o tipo de informação. Para cada disco existe informação detalhada e também um audio sampler para cada tema. O sítio reflecte um dos aspectos interessantes do seu percurso artístico, que é a crescente importância que o grafismo foi adquirindo em torno da sua imagem, a ponto de se ter criado uma espécie de iconografia própria. Se desde o início dos anos 70 já era visível o cuidado com as capas dos discos, a partir do seu desaparecimento artístico público, com a limitação da sua actividade à edição anual de um álbum, a dimensão gráfica alcançou uma imaginação e fantasia pouco comuns. Grande responsável por esta faceta foi o fotógrafo Mauro Belletti.

quinta-feira, outubro 05, 2006

quinta-feira, setembro 28, 2006

Boulevard nostalgie (22)


Léo Ferré - Avec le temps (1970)

Viagens (12): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (4)

Viagem ao Norte de Itália (Julho/Agosto de 2001) 2º Dia (tarde / noite)
É claro que em Portofino o almoço tinha que ser junto à marina. Mas, por prudência, em vez da faustosa esplanada de um ristorante, optei pela mais simples de uma trattoria. Nem por isso me livrei de uma conta de dificultosa digestão…
A viagem tinha de prosseguir, mas, renitente em abandonar estas paisagens, resolvi prosseguir fora da auto-estrada. Assim, tomei a marginal que desafia a encosta escarpada e onde, através de curvas e contra-curvas, se disfrutam de belas panorâmicas sobre a baía. Quando cheguei à cidadezinha de Chiavari impunha-se retomar a auto-estrada. Aliás, a costa, a partir daí, vai-se tornando ainda mais acidentada e deixa de haver estrada marginal. É a região de Cinque Terre, nome alusivo a cinco povoados cujo acesso só é possível por barco.
Não faltou muito que entrasse na Toscana. As montanhas de Carrara anunciavam-na. Daqui são extraídos os famosos mármores e, por causa disso, as montanhas apresentam um aspecto escalavrado. Tinha planeado seguir pela auto-estrada e fazer incursões a Lucca e Pistoia, mas havia a alternativa de passar por Pisa, a qual, contudo, implicava chegar a Florença mais tarde, por uma estrada comum. A opção acabou por ser a última.
Pisa é uma cidade de quase 100.000 habitantes nas margens do Arno. Na Idade Média fora um importante porto que sustentara rivalidade com Génova. Pois, agora está a cerca de 20 quilómetros do mar e o Arno está longe de ser navegável. O mar recuou e o rio assoreou. Foi o mesmo que sucedeu na cidade flamenga de Bruges. A torre e o conjunto monumental que a rodeia são imponentes e apresentam o mesmo estilo renascentista que encontraria em Florença. A torre pareceu-me ainda mais inclinada do que supunha. O acesso ao seu interior é interdito. Dois factos desagradáveis começaram a salientar-se: um calor excessivo e um vasto exército de turistas. Isso, juntamente com a necessidade de não chegar demasiado tarde a Florença, determinaram uma visita curta. Assim, depois de feito o abastecimento de recordações (existe uma sortido espantoso de quinquilharia alusiva ao ex-libris local), deixei a cidade de Galileo Galilei.
A chegada a Florença não esteve à altura das expectativas. Entrei por uma zona residencial moderna que se liga em transição incaracterística ao centro histórico. Além disso, rapidamente me achei consumido por um quebra-cabeças: como chegar ao destino, Hotel Medicis, em pleno centro e estacionar aí? Para grandes males, grandes remédios: como estacionar só seria possível numa garagem, pagando avultada maquia, resolvi antecipar a devolução do carro à Hertz, que tinha um escritório ainda aberto no aeroporto local. Chegar lá e encontrar, previamente, uma gasolineira aberta para deixar o depósito cheio (como era imperioso pelo contrato de aluguer), num domingo à noite, revelou-se uma aventura que descambou em sofrido transe… Era já meia-noite quando, finalmente entrei no quarto do hotel. Era um quarto grande mas fora do hotel propriamente dito. Ou seja, era um anexo exterior que estava num edifício de habitação, numa estreita rua com o sugestivo nome de Via delle Belle Donne. Tinha acabado de pagar uma brutalidade pelo aluguer do carro, outra brutalidade por uma corrida de táxi e estava cansado…

quinta-feira, setembro 21, 2006

Cuore matto (4)


Parole, parole (Mina/Alberto Lupo vs Dalida/Alain Delon)
Compare-se, através destes dois clips, a versão original, interpretada por Mina e Alberto Lupo, em italiano, com a versão interpretada por Dalida e Alain Delon, em francês.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Cuore matto (3)


Mina - Se telefonando (1964)

quinta-feira, setembro 07, 2006

Soulsville (8)

Isaac Hayes - Walk on By (1969)
Eis o grande Ike numa apresentação televisiva que remonta a 1969. Foi precisamente nesse ano que se editou o aclamado Hot Buttered Soul, que virou uma página na sua carreira artística, até então, no essencial, confinada aos desempenhos de instrumentista e compositor. É desse álbum o tema aqui presente apenas pela metade. Com efeito, dificilmente a sua duração total seria compatível com as exigências televisivas, da mesma forma que não se imagina a apresentação em TV de alguns dos seus mais emblemáticos temas... Walk On By é um standard de Bacharach & David aqui suavemente transfigurado.

terça-feira, setembro 05, 2006

Il bel paese (3)

Itália - Mapa Dialectal

Il bel paese (2)

Italia Irredenta
A Itália é um estado recente. Foi formada no terceiro quartel do século XIX a partir do Piemonte (Monarquia da Casa de Sabóia). Esse estado englobava também o Vale d’Aosta, a Ligúria e a Sardenha. Todo o resto da Península Itálica estava retalhado por várias soberanias (Império Austríaco, no Norte e Nordeste; vários pequenos estados independentes, no Centro-Norte; Estados Pontifícios, no Centro (incluindo Roma); Reino de Nápoles, no Sul e Sicília.
O processo de unificação designa-se Rissorgimento. O seu objectivo era estabelecer uma unidade estatal em toda a Península Itálica e ilhas adjacentes. O novo estado corresponderia a uma unidade geográfica natural e, neste contexto, Roma estaria naturalmente destinada a ser a capital, sendo que, ainda por cima, estava investida de poderoso significado histórico. Por outro lado, em todos esses territórios falavam-se línguas latinas e havia uma óbvia unidade religiosa – ao longo de séculos o catolicismo reforçara uma unidade cultural básica.
A consciência patriótica italiana desenvolveu-se a partir do início do século XIX, sobretudo entre a burguesia. Estabeleceu-se, sem grande discussão, o superior prestígio do toscano (idioma de Dante, Petrarca e Bocaccio) sobre todos os demais, assim como a vantagem de ser inteligível pelas populações meridionais e setentrionais. O toscano já era, aliás, a língua literária da inteligência de toda a Península, ainda que, no Norte, em situação de partilha com o francês ou alemão.
Alcançar a unificação política implicou guerras com o Império Austríaco e com a Santa Sé, que tiveram desenlaces vitoriosos, não só graças à mobilização do entusiasmo patriótico, mas também, ao apoio da França.
Contudo, quando o Rissorgimento alcançou os seus objectivos básicos, permaneciam fora da Itália territórios que reuniam requisitos geográficos e culturais de italianidade. Eram: Córcega e Nice (França); Ticino (Suiça); Trentino, Trieste e Fiume (Império Austro-Húngaro). Os patriotas radicais ainda adicionavam, com voluntarismo: Zara e toda a Dalmácia (Império Austro-Húngaro), Albânia e Malta. Em relação aos territórios franceses havia como que um tácito acordo de renúncia como contrapartida tácita pelo apoio francês. Quanto ao Ticino havia a consciência de que a população local permanecia alheia a qualquer tendência centrífuga em relação à Suiça. Onde a questão se colocava de forma aguda era em relação aos territórios sob soberania austríaca – extensos, importantes e onde havia uma opinião pública entusiasticamente envolvida no objectivo de se unir à Itália. É a partir daqui que surge o movimento Italia Irredenta, que visa completar a unidade italiana. Ele foi decisivo na reviravolta de alianças, aquando da eclosão da Grande Guerra em 1914, e foi a base sobre a qual se alicerçaram os primeiros ímpetos imperialistas do Fascismo. No pós II Guerra Mundial o irredentismo corporizou-se no vasto movimento de reintegração de Trieste no território italiano.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Dancing Days (14)

Peaches & Herb - Shake Your Groove Thing (1978)

Dancing Days (13)

Ryan Paris - Dolce Vita (1983)
Este tema foi uma das pontas de lança do Italo-Disc. Foi composto e produzido por Pierluigi Giombini e interpretado por Ryan Paris, cujo verdadeiro nome é Fabio Roscioli. Este, aliás, bem se pode considerar o exemplo perfeito de um artista de um único hit... mas que hit! Foi um tremendo êxito, sobretudo em Espanha, Alemanha, França e depois por quase toda a Europa, com algumas excepções. Com efeito, curiosamente, em Itália passou pouco menos que despercebido. Em Portugal nunca existiu, sequer... Quanto à Grã-Bretanha, escusado será dizer que permaneceu imune a assaltos continentais. Mas o EP vendeu mais de 5 milhões de exemplares! Ryan Paris acabou por se radicar na Alemanha, como, aliás, ocorreu com Francesco Napoli, que apresenta também um percurso similar.
O vidioclip é bastante primitivo e a qualidade do som... ruim até dizer chega. Eu, porém, adoro este tema e encontrá-lo assim, mais que um mero exercício de nostalgia, é como que um troféu.
Ryan Paris / Dolce Vita

sexta-feira, agosto 11, 2006

Viagens (11): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (3)



Viagem ao Norte de Itália (Julho/Agosto de 2001) 2º Dia (manhã)

O dia começou em esplendor: abrindo as persianas, eis o espectáculo do Lago Maggiore e dos Alpes numa manhã luminosa! Contudo, após um breve passeio pela marginal, impunha-se começar uma jornada de 500 quilómetros rumo a Sul.
Rapidamente se atingiu a auto-estrada que vem de Domodossola, na fronteira com o cantão suíço de Vaud, e vai até à costa lígure, atravessando o Piemonte. Após uma profusão de túneis, chegámos à planície Padana. Passámos à ilharga de Novara, Vercelli e Alessandria. Aqui não pude deixar de evocar a figura do músico Paolo Conte, meu ídolo, que é desta zona.
Foi no Piemonte que se forjou o nascimento da Itália (Rissorgimento). Era uma parte do reino da Sabóia. É curioso, pois, essa entidade não era genuinamente italiana, já que as suas origens estavam em território hoje francês. Na corte e nos ambientes cultos, a língua dominante foi, nos séculos XVII e XVIII, o francês, o qual só a partir do século XIX começou a ceder perante o toscano (italiano). Note-se, porém, que entre o povo, que falava um romance de filiação gálica, o idioma de Dante não era menos estranho que o francês...
Ao entrarmos na Ligúria a auto-estrada embrenha-se nas montanhas. Daqui para diante e por muitos quilómetros o percurso foi feito mais sob túneis do que à superfície. Não imaginava que houvesse auto-estradas com tantos túneis. A Ligúria é uma região litoral e montanhosa. As localidades aparecem implantadas sobre penhascos, com uma característica torre de igreja e um pequeno castelo. Génova, a principal cidade, é populosa e ostenta uma rica tradição comercial e marinheira. Entre várias glórias, basta dizer que foi aqui que mais provavelmente nasceu Cristóvão Colombo. A fisionomia desta cidade é original, pois estende-se por uma longa faixa costeira alcandorada em encostas íngremes. A beira-mar é um porto contínuo – o mais importante da Itália. A auto-estrada passa pelas suas entranhas num percurso intermitente de túneis e fragas escavadas. A cidade foi-se mostrando, assim, em flashes, com zonas residenciais em socalcos. Eram edifícios comuns, mas sujeitos a homogeneidade de cores. Tal como acontece em Espanha, são muitas as varandas que dispõem de toldos iguais (o mesmo padrão cromático para cada prédio) e muitas têm flores.
A seguir tomámos o desvio para Portofino. Entrámos na estância de Rapallo e aí começou um trajecto que reforçou o meu fascínio pelo Mediterrâneo. É uma costa acidentada, revestida de vegetação arbustícia, mas onde a presença humana se distingue pelo bom gosto. Não se avista blocos de apartamentos ou torres de hotéis como os que enxameiam o Algarve e a costa mediterrânea espanhola. Não estamos perante uma área despovoada (bem pelo contrário), o que sucede é que tudo parece ter sido construído entre a Belle Époque e os anos 50. São numerosas as casas apalaçadas e não raras as mansões. A arquitectura é de bom-gosto.
Rapallo é um aperitivo para a estância seguinte, Santa Margherita Ligure. Esta, por sua vez, prepara a entrada para Portofino. As praias, propriamente ditas são acanhadas, com areia grossa ou mesmo só seixos e rochas. Naquele concorrido domingo a estrada estava bordejada por um enxame de “vespas” e motas.
Portofino é um rincão do paraíso. Só há casas de estilo genovês – altas, estreitas e de cores suaves. Nas colinas em redor só se vislumbram vivendas apalaçadas. O porto alberga iates de luxo. Não admira que os estilistas milaneses venham para aqui fazer os seus desfiles… É um cenário de anúncio Martini. O tema Love in Portofino, seja no original de Johnnny Dorelli ou na versão de Dalida, ainda traduz bem a atmosfera do lugar. Também podem ser convocados clássicos de temática estival como Sapore di Sale ou Estate