sábado, novembro 27, 2004

Vintage (2)

A Corda (Rope)
A obra de Hitchcock é reconhecida pelo público e pela crítica. Mas o mestre do suspense tem também filmes menores. Não são esses que geralmente vêm à memória quando evocamos a sua filmografia. Há um, porém, que está longe da primeira linha do reconhecimento e não se pode dizer que seja um filme menor. É A Corda (Rope) (1948). A trama é original, embora haja alguns outros filmes de Hitchcock tão ou mais originais. A forma como o filme é feito, nomeadamente a direcção de actores e, sobretudo, a composição do ambiente é que lhe dão um carácter insolitamente macabro. Tecnicamente também é um filme insólito, na medida em que constitui um exercício de virtuosismo - o tempo da acção corresponde ao tempo real e é filmado sempre no mesmo plano (com a mesma câmara, que se limita a correr nos carris). Ora, sucede que isto não é apenas um capricho técnico, na medida em que tem incidência no adensamento do ambiente macabro.
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Vintage (1)

Frank Sinatra - In The Wee Small Hours (1955)
É unânime entre os conhecedores do percurso musical de Frank Sinatra: o seu apogeu corresponde ao período Capitol (anos 50). Foi então que coincidiram no mais elevado grau dois factores: uma timbre vocal extraordinário e orquestrações exímias - uma boa parte das quais devem-se a Nelson Riddle. O LP aqui reeditado em formato CD reúne estes dois requisitos. Mas esta gravação é ainda particularmente importante pelo facto de ser, segundo parece, o primeiro álbum conceptual de sempre. Com efeito, até então, todas as gravações de longa duração eram um mero repositório do previamente editado em discos de curta duração - daí, aliás, a designação álbum. Assim continuou a ser, na esmagadora maioria dos casos, até ao momento em que The Beatles, Bob Dylan e outros nomes da primeira linha da pop/rock dos anos 60 e 70 impõem o álbum conceptual como paradigma e avançam para os álbuns temáticos.
O conceito de In The Wee Small Hours é uma ambiência musical e poética que converge numa linha que vai da melancolia à amargura, conduzida por reflexões suscitadas pela desilusão amorosa. A imagem da capa e o título sublinham o conceito: um Sinatra quarentão ensimesmado, de cigarro pendente na mão, numa rua deserta, no fim de uma noite que se adivinha de ter sido de desilusão... A homogeneidade musical percorre os 16 temas. Contudo, há dois que merecem destaque: What is this thing called love e Ill Wind - em ambos, mas particularmente no primeiro - brilha desde a entrada o clarinete de Nelson Riddle e uma voz magnificente no seu poder expressivo de interpretar o sentimento amargo da música e letra. Gravação feita ainda em mono, em meados dos anos 50, no alvorecer de uma nova era da música popular (germinava já o rock & roll...), este trabalho é um ponto de chegada e de partida.
Desta forma inicio a rubrica Vintage, na qual me proponho evocar música, cinema e literatura cuja qualidade, o tempo demonstrou estar acima de modas e gostos efémeros.
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Página Web (em reestruturação)

Soulsville (2)

CD2: Isaac Hayes - Shaft (1971)
DVD: Gordon Parks - Shaft (1971)
Se há algum filme cujo relevância advenha da sua BSO este é um deles. Composta por Isaac Hayes, representa um estilo e sonoridade de uma época. O tema principal, assente em wowows de guitarra eléctrica, acompanhados por um poderoso naipe de metais, é um eterno clássico, mas os restantes temas, quase todos instrumentais, são excelentes, com destaque para Do Your Thing - o mais jazzy de todos os de Isaac Hayes. No conjunto há muito poucos temas vocais, mas entre eles avulta Soulsville, que incide na questão social dos ghettos negros das grandes cidades norte-americanas.
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O filme, de Gordon Parks, protagonizado por Richard Roundtree, seria hoje encarado como um mero filme de Série B, não fora a BSO e o facto de ser a primeira vez em que o herói de um filme é um negro. De resto, a história é simples, dentro dos conhecidos cânones, mas produzida e realizada com honestidade, sem pretensiosismos descabidos. Em todo o caso, é um produto susceptível de proporcionar descontraída nostalgia. Diga-se que foi, na época, um êxito no mercado norte-americano, facto que originaria, aliás, duas sequelas.
Há um extra especial: uma sessão de gravação de Isaac Hayes e seu grupo, The Isaac Hayes Movement. É gratificante ter a oportunidade de o ver a tocar. Além disso, é curioso o contraste entre a sua calvície absoluta (avant la lètre) e a vasta cabeleira esférica (como estava então na moda entre a negritude norte-americana) dos restantes músicos. Também dá para perceber o virtuosismo da trupe, que brota de uma descontracção criativa um pouco ganzada, a qual pode deixar entrever, talvez, suspenso no ambiente, um certo cheiro a erva...
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Soulsville (1)

Isaac Hayes (1942)
Isaac Hayes foi um dos mais importantes nomes da Soul nos anos 70. Contudo, antes de se tornar conhecido como intérprete, a partir de 1969, tinha já uma trajectória como compositor do soul duo Sam & Dave. Tinha, inclusivamente, gravado e editado, como protagonista e intérprete, um LP (Precious, Precious 1967) - que só escaparia do anonimato nos anos 70. Na verdade, este descendente de escravos das plantações do Tennessee cedo procurou os caminhos da música, já que, ainda adolescente, tocava saxofone e cantava em night-clubs de Memphis.
A edição de Hot Buttered Soul (1969) assinala uma viragem na carreira de Hayes, alcançando um reconhecimento que se prolongou até finais da década de 70. A partir de então entra na obscuridade. A sua produção caiu em quantidade e qualidade, pelo menos até um efémero reaparecimento em meados de 90. A sua carreira passou a estar mais ligada ao cinema e TV - foi, por exemplo, uma das vozes de um personagem da série de animação para adultos, South Park.
Os anos 70 foram o auge da carreira musical de Hayes, que assentou numa Soul inovadora, construída com temas de longo (ou longuíssimo) desenvolvimento, com sofisticadas orquestrações e com a sua voz - ingredientes de acentuado cariz quente e amanteigado - hot buttered (seria preferível o termo aveludado...). Apesar de excelente compositor, Hayes atinge a plenitude nas versões de temas alheios. Neles, exerce uma transfiguração radical, já que os recria, tornando-os em algo completamente diferente do original. Alguns são geniais exercícios de decomposição e recomposição através de uma matriz hayesiana, única e inconfundível - é o caso de By The Time I Get to Phoenix (in Hot Buttered Soul); I Stand Accused (in The Isaac Hayes Movement); Our Day Will Come e The Look of Love (in To Be Continued); Never Gonna Give You Up (in Black Moses). Estes exemplos conduzem-nos, aliás, a um tópico crucial: as sequências faladas - raps. Foi a primeira vez que se utilizou o termo, podendo-se dizer que 10 anos antes da eclosão do Rap como género, já havia surgido, mas com uma feição bem distinta, com mensagens e formas sensuais ou mesmo eróticas. Os Ike's raps tornam-se uma imagem de marca e em certa altura da sua produção discográfica chegou a ser utilizada uma curiosa contagem (Ike's rap nº4, Ike's rap nº5, etc...).
O título do LP Hot Buttered Soul tornou-se designação extensível ao estilo. Este LP "fundador" e uma série de LP's subsequentes (todos com o selo da editora Stax) consolidaram-no. Entre eles avulta a banda sonora original (BSO) do filme Shaft, que representou o ponto mais alto da carreira de Hayes, correspondendo ao Óscar de melhor BSO (1971).

sábado, novembro 13, 2004

Boulevard Nostalgie (16)

DVD: Marco Ferreri - La Grande Bouffe (1973)
Nos anos 70 a produção cinematográfica europeia era dominada por uma sensibilidade esquerdista. Este facto, compreensível no contexto daqueles tempos, não deve levar-nos a ignorar o brilhantismo de alguns filmes. Efectivamente, se uma parte desse cinema ficou irremediavelmente datado, sucede, por outro lado, que muito do que de melhor foi feito, com espírito rebelde e iconoclasta, foi feito nesse tempo e não se imagina que pudesse ser feito agora... É o caso deste filme, de Marco Ferreri (mais um italiano afrancesado...).
O argumento é uma metáfora que encaixa no tipo de denúncia simplista dos vícios da sociedade burguesa. Esta que foi a forma mais comum de apresentar o filme na altura, é uma interpretação redutora. Com efeito, o argumento parece tocado por aquela graça anarco-surrealista que não anda longe do génio buñueliano. Mas se o argumento é um achado (um grupo de quatro burgueses, consumados gourmands e amantes dos prazeres da vida, que se encerram numa mansão para se empanturrarem com opíparos manjares, em sessão contínua até ao suicídio...), o casting e a realização dão-lhe um definitivo toque de génio. Quatro pesos pesados do cinema francês e italiano repartem o papel de sibaritas: Michel Picolli; Philippe Noiret; Ugo Togazzi; Marcello Mastroianni. A eles junta-se uma Andrea Ferreol que, com o seu perfil felliniano, no limiar de uma pungente obesidade, compõe um papel de gorda lasciva. A componente sexual é protagonizada por esta figura de nutridos seios e nádegas, com comportamento tão relaxado como a das suas carnes flácidas. Com efeito, a determinado momento, o garanhão do grupo (quem haveria de ser senão Marcello?) entende que o prazeres carnais não se devem restringir à mesa... Depois de, por encomenda pontual, ter usufruido dos serviços de jovens esbeltas, mas de todo alheias ao espírito do grupo, Marcello seduz Andrea, que se aproximara da cerca da mansão e convence-a (com facilidade…) a entrar no empreendimento.
Temos a sensação que estes grandes actores são deixados em roda livre. Aliás, significativamente, o nome dos personagens coincide com o nome dos artistas e o registo que cada um assume está de acordo com o imaginário que temos deles. Andrea é a parceira ideal - em rigor, não faz parte do grupo; aparece por lá e por lá fica, a instâncias de Marcello e perante a desconfiança inicial dos restantes três, que encaravam a reclusão com espírito misógino.
A decadência progressiva do grupo é patética! Algumas imagens são inolvidáveis, nomeadamente a morte de Michel Piccoli, suspenso num parapeito, em épico transe de libertação de gases... O patético acentua-se quando o instrumento viril de Marcello deixa de funcionar, suscitando nele um desconcertante desespero. Os quatro morrem de formas bizarras, mas Andrea sobrevive-lhes melancolicamente e volta para as suas funções docentes - a senhora era mestre-escola...
Para além de reflexões que pode suscitar a propósito de decadência, La Grande Bouffe foi um filme que associou Rabelais e Sade, estabelecendo-se num universo de íntima relação entre comida/sexo, prazer/dor - algo que só voltará a ser visto em algumas geniais excentricidades do realizador inglês Peter Greenaway.
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Boulevard Nostalgie (15)

LP: Herbert Pagani - Pagani a Bobino (1976)
Não foi feita ainda uma edição em CD desta gravação ao vivo de Herbert Pagani, o que é incompreensível, já que se trata de um trabalho excepcional. Pagani morreu em 1988, com apenas 44 anos, vítima de leucemia - uma desgraçada ironia para quem amava a vida e tinha uma conceito radicalmente optimista da condição humana. Aliás, uma vida que denota valores que foram sempre coerentemente assumidos como base inspiradora da sua arte, a qual não se reduziu à música. Eram valores que reflectiam uma sensibilidade libertária e ecologista, num empenhamento que era mais a um nível filosófico do que programático. A sua carreira foi feita quer no âmbito francês, quer no âmbito italiano, reflectindo o seu natural bilinguismo. Note-se que nasceu na Líbia no seio de uma família judia italianizada e que a sua vida adulta decorreu entre Itália e França.
O LP em apreço notabilizou-se, sobretudo, pelo tema L'Amitié - uma "hino instântâneo" que teve na época alguma repercussão. Contudo, está longe ser apenas um desfile de temas, já que obedece a um plano conceptual, construído em torno de valores e vivências do artista, num tom de arrebatado lirismo e emotividade. Ou seja, é um espectáculo que transcende o plano musical e que obedece a um guião de tipo quase teatral... Existem muitos temas musicais de elevada qualidade (destaco Leçons de Peinture, Serenade...) e declamações, que fazem a ligação entre eles. É esta intrínseca qualidade artistica que permite transcender o cliché da vulgata ideológica e confere intemporalidade.
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segunda-feira, novembro 08, 2004

Noites tropicais (6)

Zizi Possi - Sobre Todas as Coisas (1991)
Portugal teve sempre o privilégio de estar próximo da música brasileira, tendo aqui os seus artistas ampla divulgação e popularidade. Contudo, este facto pode iludir que alguns nomes importantes permanecem pouco menos que deconhecidos entre nós, o que é válido para a paulista Zizi Possi (de ascendência napolitana).
Sobre Todas as Coisas nasceu como show e só depois passou á condição de disco, o que se nota, aliás, em certos aspectos do seu conceptualismo. Note-se que a artista tem uma voz de grande beleza e é ao mesmo tempo pianista de formação clássica. Sobre esta base privilegiada, a partir de finais dos anos 80 (com Estrebucha Baby), a sua carreira beneficia de um salto qualitativo, com produções sofisticadas e com um cada vez mais apurado critério na escolha de repertório. No caso em apreço, os temas são standards da canção brasileira ou da autoria de nomes grados da MPB - é, portanto, um disco eminentemente brasileiro. Porém, acentua-se uma configuração intimista que se assume, por vezes, como recriação num plano de intenso lirismo e delicadeza. É um produto do mais refinado bom-gosto, parecendo ser estes adjectivos que naturalmente emanam da sua figura de sempiterna beleza...
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Viagens (2): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (2)

Notas de férias: Paisagem Urbana
Muitas das coisas relativamente surpreendentes que pude apreciar nessas férias em New Jersey já contava com elas. Contudo, uma das que verdadeiramente me surpreendeu foi a paisagem urbana. Não foi o facto de a esmagadora maioria das casas das zonas habitacionais serem vivendas unifamiliares de madeira - algo que já sabia de antemão, embora a sua proporção superasse o imaginado. Foi, isso sim, a amplitude de espaços e a quantidade de espaços verdes nas zonas habitacionais. Esta observação não é válida para Nova Iorque, propriamente dita, mas aplica-se a toda a zona norte do estado de New Jersey e, presumo, a toda a vastíssima área periférica da Grande Nova Iorque. Quando ressalvo o caso de Mannhathan, há que ter a noção da sua especificidade - uma ilha longuilínia com uma saturadíssima densidade urbana - e não esquecer que no seu centro se implanta aquele que deve ser o maior parque urbano do mundo - Central Park. Por todo o norte do estado de New Jersey as cidades não tem semelhança alguma com as cidades periféricas das áreas metroplitanas europeias. Estendem-se por vastas superfícies e consistem em aglomerados de vivendas no meio de baldios abertos (nos piores casos) ou no meio de autênticos bosques (nos melhores). As árvores e os revaldos estão presentes em grande quantidade. Pensava que este facto seria uma constante da América do Norte, mas que esta região seria uma das pontuais excepções. Assim não é. Passa-se o Hudson e o que mais há é espaço. Apesar da densidade populacional estar muito longe de ser baixa, não faltam espaços residenciais de grande sossego. O centro de cada uma dessas cidades suburbanas (com parcial excepção de Newark), limita-se a ser um cruzamento com semáforos e um par de edifícios de pedra e meia dúzia de lojas. A construção em altura é uma absoluta excepção que concide com estes pontos. As zonas residencias têm pouco comércio e um movimento escasso. Enfim, é um pleno contraste com Nova Iorque.