terça-feira, novembro 21, 2006

Cuore matto (11)

Mina - Ancora, ancora, ancora (1978)
Este vídeo ilustra, ao que parece, a última aparição televisiva de Mina, algures nos finais dos anos 70. É uma transbordante manifestação de sensualidade e poderio interpretativo. Apesar da amostra aqui presente estar truncada (pela duração abruptamente encurtada e pelo desfilar do genérico), é um testemunho incrível - um autêntico desplante da artista, que dir-se-ia estar no limiar do descontrolo. Veja-se como, num arrebatamento de impetuosa gestualidade (que lhe era, aliás, comum), a páginas tantas enceta uma desconexa batalha com o cabelo, que resulta num desenlace sem solução de continudade. Nesse impasse, expeditamente retoma a desenvoltura com um sorriso trocista... É um vulcão de eruptiva sensualidade. Comparado com isto, os exibicionismos de madonnas e outras divas de pacotilha do actual pop mainstream, mais não são do que insonsas imposturas pronto-a-vestir de marketing para o povinho...
Para ser visto (e idolatrado!) ancora, ancora, ancora... sempre ancora.

Cuore matto (10)

Ornella Vanoni - A un certo punto... (1974)
O ano de 1974 é particularmente notável na carreira discográfica de Ornella Vanoni. Apenas uns meses antes de La voglia di sognare, havia surgido este álbum, A un certo punto.... São os dois muito bons. Neste, descontado o último tema - versão do alegre tema de Caetano Veloso, Chuva, suor e cerveja - há uma nuvem de suavidade que perpassa por todo o álbum. É algo que esbate os conteúdos fortes, modulando a expressão das emoções. Sucedem-se as canções de amor tocadas pela melancolia. Bela melancolia, diga-se, iluminada por laivos de dramatismo contido... É um dos registos em que os dotes de Ornella mais sobressaem. Para completar, as canções são de boa colheita compositora e os arranjos orquestrais são um primor. Enfim, é maais um momento alto do cançonetismo italiano.

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Ornella Vanoni - Prime ore del mattino in A un certo punto... (1974)


Ornella Vanoni - Il continente delle cose amate in A un certo punto... (1974)

Cuore matto (9)

Ornella Vanoni - La voglia di sognare (1974)
Um pouco em contra-tendência, nos anos 70 a canção italiana atinge a sua plenitude. É um facto que o Festival de San Remo estava cada vez mais longe do esplendor da década anterior, mas, em contrapartida, a produção discográfica utiliza meios de produção mais modernos, incorporando alguns elementos oriundos do pop/rock. A generalizada perda de importância do cançonetismo, em Itália, traduz-se, assim, mais no plano quantitativo e, eventualmente, comercial, do que no plano substantivo da qualidade. É o que se passa com Ornella Vanoni.
O álbum La voglia di sognare é um produto consistente, que consegue fazer sobressair as qualidades interpretativas de Ornella Vanoni, com um conjunto de canções que, através de uma linha melodiosa homogénea, suscitam o desempenho da sua sensibilidade interpretativa. O repertório até é variado, abrangendo duas versões de temas franceses e uma versão de um tema brasileiro, sendo os oito restantes temas inéditos e consagrados de autores italianos. O valor do conjunto é elevado, mas o destaque vai para Un mondo di più, de Lucio Dalla e Sergio Bardotti - um sugestivo tema de amor que prova como a voz de Ornella pode ser insinuante e quente...
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Ornella Vanoni - Un mondo di più in La voglia di sognare (1974)

Cuore matto (8)


Grande senhora da canção italiana, Ornella Vanoni é quem mais tem sustentado um estatuto de paridade em relação a Mina. Entre os fans de ambas (gente já com idade para ter juízo...) há um longo passado de rivalidades, um pouco à maneira do que ocorria cá, nos anos 60, entre os fans de Madalena Iglésias e os de Simone, mas em ponto muito maior. A verdade é que, quer Ornella, quer Mina, cada uma no seu estilo, representam o melhor da música ligeira. Por mim, adoro as duas, reconhecendo, obviamente, que são muito diferentes. Em todo o caso, a disputa, se é que verdadeiramente existe, pode-se presumir no que diz respeito às respectivas páginas oficiais na Web. Neste particular, parece que se pretende não ficar atrás de Mina... Com efeito, no seu sítio oficial há um excelente grafismo, que se adequa ao seu estilo.

terça-feira, novembro 14, 2006

Memória do futebol (2)

Grandezas: delírios e realidades
A iniciativa do Benfica em se alardear como recordista mundial em número de sócios suscita-me alguns reparos. Ao contrário do que possa parecer, a iniciativa é mais uma demonstração da sua decadência na galeria dos grandes do futebol mundial. Perdida a glória de ser o clube português com melhor palmarés internacional e confrontado a nível interno com a perda da hegemonia, investe nestas glórias... Iniciativas de divulgação da sua grandeza na história do futebol seriam mais sensatas e pertinentes. Esta, na verdade, é uma glória patética, que assenta na efémera mobilização de sócios, um tanto ad hoc... Tão patética quanto, sendo, indiscutivelmente, o clube com maior número de adeptos, não conseguiu, nas últimas temporadas (mesmo naquela em que foi campeão) ter a liderança na média de assistências por jogo... Além do mais, isto parece ser uma consolação para o desfazer da quimera delirante dos 300.000 sócios... A massa crítica benfiquista, qual aristocracia decadente, parece entregar-se à fruição de delírios megalómanos...
O conceito de sócio é obsoleto para os grandes clubes mundiais. Bem mais significativo é, por exemplo, o número de abonados de pacotes de bilhetes por temporada ou competição, de compras de assistências televisivas de jogos em pay per view, ou, evidentemente, de assistências nos estádios. O conceito de sócio era algo decisivo nas velhas entidades clubísticas, nas quais a prática desportiva fazia parte da afirmação da identidade. Hoje, a nível de grandes clubes, essa realidade só persiste na América do Sul. E mesmo aí, advinha-se, já em crise...
Verdadeiro Ranking de grandeza (algo cruel, mas cada vez mais incontornável) é o que a empresa de consultadoria Deloitte vem fazendo nos últimos anos, ordenando os 20 clubes mais ricos do mundo em função dos seus rendimentos. Veja-se o último, relativo a 2005, in Deloitte (España). No que diz respeito a clubes portugueses, só esteve próximo da lista o FC Porto. Passou, episodicamente pelos 5 lugares adicionais (ou seja, entre o 21º e o 25º lugar), por força da campanha que lhe deu o título europeu e os correspondentes prémios financeiros. Tal sucedeu em 2004. Não há perspectivas razoáveis que possa voltar a suceder a curto ou médio prazo com um clube português.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Il bel paese (4)

Florença - finais dos anos 40

Viagens (13): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (4)

Viagem ao Norte de Itália (Julho/Agosto de 2001) 3º Dia

De manhã, ao sair do hotel, pude finalmente constatar aos encantos de Florença. A luminosidade e a ausência de fadiga permitia-me uma visão diferente. Deparei-me logo com a imponência do Palazzo Strozzi e com a igreja de Santa Maria Novella, que tem uma fachada onde sobressai o contraste entre as linhas entremeadas de cinzento claro e de cinzento escuro, o que se repete, aliás, em vários outros edifícios religiosos e laicos.
Um dos problemas que afectou a estadia foi a avalanche turística que me dissuadiu de engrossar as longuíssimas bichas para entrar em sítios fundamentais. Porém, ainda pior foi a onda de calor, com temperaturas máximas em torno dos 37º e mínimas que não desciam dos 23º. Florença foi protagonista desta vaga e os telejornais repetiam imagens de turistas banhando-se nas fontes.
A Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo) é um dos ex-libris da cidade. A grandiosidade da cúpula, de Brunelleschi, contrasta com a graciosidade das linhas de todo o edifício, em particular com a fachada e o Campanille (torre sineira). Há formas geométricas nos mesmos tons de Santa Maria Novella. Sempre tive queda pelos excessos barrocos, contudo, o classicismo florentino, nomeadamente o que se pode apreciar no Duomo, é de insuperável elegância, sem renunciar a pormenores decorativos. Ainda assim, o interior pareceu-me não estar à altura do exterior. O baptistério, edificado à parte (em Pisa também é assim), bem no centro da praça, é imponente. A Porta do Paraíso (Leste) atraía uma descomunal fila de turistas, cuja maioria, talvez, não soubesse estar perante uma réplica. O original está no vizinho Museo dell’opere del Duomo. Todo este conjunto monumental, visto de cima não deixaria de se assemelhar a torrões de açúcar atacados por um formigueiro. Os turistas são aqui uma completa amostra da humanidade - pude ver, por exemplo, uma excursão de turistas hindus.... Muitos faziam parte de grupos guiados que se embrenhavam por ruas esconsas. Mesmo em sítios aparentemente comuns paravam, banhados em suor, escutando o guia. Em boa verdade, qualquer recanto pode exalar história e a arte pode assaltar a partir de um qualquer saguão. Pouca coisa comum deve haver no centro de Florença... O vulgar turista, mesmo aquele que detém alguma sensibilidade para as coisas da arte e da história, corre o risco de enfartamento. Mas, não se pense que é uma cidade museu, no sentido, em que esteja desprovida de vida normal. Tem cerca de meio milhão de habitantes e um intenso tráfico adaptado às contingências de uma morfologia medieval. Contudo, note-se, que não se vislumbra em todo o centro um único edifício moderno! Este e outros sintomas denotam que a cidadania está orgulhosa do estatuto ímpar da sua urbe.
A Via dei Calzaiuoli é o eixo que atravessa o centro. Um pouco mais ampla que as restantes ruas, exclusivamente reservada a peões, vem desde o Duomo, passa perto da Piazza della Repubblica e desagua na Piazza della Signoria. A Piazza della Repubblica está composta por edifícios novecentistas, de linhas clássicas, ocupados por companhias de seguros. Está rodeada de cafés com esplanadas, onde os turistas são alegremente espoliados pelo consumo de um Cinzano ou de um gelato. A Piazza della Signoria é a ágora – o coração cívico. Impressionei-me quando lá cheguei e dei de caras com o ex-libris máximo, o Palazzo Vecchio e a sua torre comunale. Lá estão estátuas célebres como Perseu, de Benvenuto Cellini e, sobretudo, Davide, de Michelangelo. Mas, é evidente que são réplicas... Naquela manhã de primeira segunda-feira de Agosto, aquele lugar parecia palco de um quase tumulto, tal era a quantidade de turistas emocionados que tropeçam uns nos outros, de máquina fotográfica em riste. Com efeito, muita gente chega aqui com a emoção com que um muçulmano chega Meca. Perante a visão do Davide com a moldura do Palazzo Vecchio atrás, sente que cumpriu um desígnio superior – muitos não se contêm e tratam de utilizar o telemóvel para participar o evento a um algum ente querido distante. Para mim não foi muito distinta a sensação de atravessar a Ponte Vecchio, que até os nazis não tiveram coragem de bombardear... Todas as lojas da ponte, com uma única excepção, são ourivesarias. As montras ostentavam peças a preços inalcançáveis. Mas mais importante foi comprovar que dessa ponte mítica se pode apreciar um pôr de sol especial... Toda o dia foi ocupado em deambulações pedestres – é a única forma adequada de conhecer a cidade. Quando caiu a noite foi uma surpresa verificar que não havia gente na rua na quantidade que seria de esperar. Depreendi que em Itália há pouca animação exterior nocturna, sobretudo, atendendo às potencialidades dos espaços e ao que ocorre, por exemplo, em Espanha.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Tiro ao alvo (13)

Vasco Pulido Valente: A vida é um funil
São sempre saudáveis os banhos de lucidez que Vasco Pulido Valente proporciona aos seus leitores (neste caso, ouvintes):


Extracto da entrevista de Vasco Pulido Valente a Pessoal e Transmissível, de Carlos Vaz Marques. (TSF, 8 de Novembro de 2006).
Informação e ficheiro audio retirados de A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas.



segunda-feira, novembro 06, 2006

Memória do futebol (1)

Inglaterra, 1888
Estávamos em plena era da Rainha Vitória. O Império Britânico era ainda a principal potência imperial. No resto do mundo, para além da Mancha, não se fazia a mais remota ideia do que poderia ser o futebol. Contudo, em 1888, esta modalidade, derivação plebeia do rubgy, estabeleceu-se em Inglaterra como espectáculo profissional e organizado em campeonato de liga, por poule. Era um fenómeno circunscrito sob o ponto de vista social e geográfico, embora com crescente impacto. Dizia respeito à classe operária e a três regiões: Lancashire, West Midlands e East Midlands. Todas os clubes que inauguraram essa competição, em 1888, eram dessas três regiões. Não havia, por exemplo, nenhum de Londres. No essencial, permaneceu com esta configuração até à Grande Guerra (1914-18). Tornou-se o grande espectáculo proletário dos sábados à tarde. Os primeiros jogadores profissionais eram oriundos do operariado. A pouco e pouco as classes médias foram aderindo ao espectáculo, mas, até meados dos século XX, manteve-se como espectáculo essencialmente proletário. As classes mais elevadas mantiveram-se longe desse mundo - os seus desportos de equipa eram o cricket e o rugby.
Eis a classificação final dessa 1º edição da Liga (1888-89):

1 - Preston North End FC - 40
2 - Aston Villa FC - 29
3 - Wolverhampton Wanderers FC - 28
4 - Blackburn Rovers FC - 26
5 - Bolton Wanderers FC - 22
6 - West Bromwich Albion FC - 22
7 - Accrington FC - 20
8 - Everton FC - 20
9 - Burnley FC - 17
10 - Derby County FC - 16
11 - Notts County FC - 12
12 - Stoke FC - 12

Eram clubes de zonas fortemente industrializadas, quase todos inseridos nas conurbações de Birmingham e Liverpool-Manchester, estabelecidos em pequenas e médias cidades periféricas dessas grandes áreas. Dessas cidades, propriamente ditas, só encontramos dois: Everton (Liverpool) e Aston Villa (Birmingham), mas, é de notar, que ambos ostentavam nomes alusivos ao seu bairro, não à cidade. Curiosamente, os 3 últimos classificados são os únicos de fora dessas conurbações. O futebol nasce assim como fenómeno industrial, urbano e bairrista.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Noites tropicais (11) (3 remake)

João Gilberto - Amoroso (1977)
Alguém disse (foi José Nuno Martins no saudoso Os Cantores do Rádio) que este seria o melhor álbum de sempre da música brasileira. Sem abandonar o espírito da bossa-nova, João Gilberto fez aqui um exercício de sofisticação e cosmopolitismo. Sofisticação que decorre tanto da sua forma de cantar (mais sussurrante do que nunca) como dos voluptuosos arranjos de Claus Ogerman. Cosmopolitismo, porque interpreta três temas não brasileiros: 'S Wonderful, de Gershwin; Estate, de Bruno Martino; Bésame Mucho, de Consuelo Velázquez (já anteriormente o tinha gravado, mas de um modo bem mais convencional). O curioso é que a sua inépcia linguística é um must adicional - um italiano e um castelhano que soam assim divinamente adocicados! Estate alarga-se por seis minutos e meio, tornando-se aqui uma espécie de afrodisíaco para espíritos refinados. Com o famoso bolero a receita intensifica-se. A cadência lentíssima e aveludada alarga-o por quase nove minutos de puro êxtase. Mas se parece impossível superar o transe destas emoções, há que esperar até ao último tema, Retrato em Branco e Negro (Zingaro), de Tom Jobim. Está para além da perfeição!
Esta obra-prima foi gravada em finais 1976 e início de 1977, entre Nova Iorque e Los Angeles e parece ser o culminar de uma década e meia em que o gosto norte-americano se rendeu à bossa-nova.
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