sábado, setembro 24, 2005

Noites tropicais (7)

Emílio Santiago - Beija-Flor (1998)
A música popular brasileira teve sempre ampla difusão em Portugal. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proprcional à da origem. Se assim fosse, Emílio Santiago seria cá mais conhecido. Sabe-se como as vozes negras têm muitas vezes um travo bem identificativo. Pois, esta voz é um bom exemplo. Encaixa-se perfeitamente no tópico de "negão" - quente e poderosa. Diga-se que tais qualidades são apropriadas para a bossa nova e para o samba-canção... Não surpreende, portanto, que no seu repertório haja frequentes incursões nestes géneros.
Este álbum é posterior à série de álbuns Aquarela Brasileira, ao longo da qual o cantor se espraiou por clássicos da bossa e, sobretudo, do samba-canção. Foi um prolongado exercício nostálgico, comercialmente compensador. Contudo, esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. Com efeito, a sistemástica utilização do medley e de arranjos convencionais caracterizam a série Aquarela. As suas qualidades de intérprete acabariam por ser melhor aproveitadas nos últimos álbuns, os quais reflectem conceitos de produção mais refinados. Beija-Flor está produzido por Mazzola e é um trabalho elaborado, bem acabado e coerente. Apesar da presença de canções de compositores mais jovens (Lulu Santos, Chico César), há algumas de compositores mais antigos (Ivan Lins), alguns temas clássicos da canção brasileira e, mesmo um dos meus boleros preferidos, Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero. Há grande variedade de interpretações deste famoso bolero, pois a que aqui se apresenta é excelente. Enfim, para este tipo de vozes o bolero vem mesmo a calhar... Contudo, o ponto mais alto deste álbum de elevado valor médio, está em temas genuinamente brasileiros, entre as quais destaco o clássico Brigas.
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domingo, setembro 11, 2005

Extravagâncias (1)

Peter Greenaway - O Contrato (The draughtman's contract) (1982)
O cinema de Peter Greenaway ocupa um lugar bem distante em relação ao mainstream formatado pelos padrões de Hollywood, os quais estão cada vez mais pobres e incapazes de surpreender. Consabidas fórmulas de sucesso são exploradas reiteradamente até à exaustão e a imaginação parece tolhida. Esta evolução é mal disfarçada pelo arsenal técnico e pelo impacto mediático do star system. Se a história do cinema deve estar para sempre credora de Hollywood é, acima de tudo, pelo cinema clássico. Infelizmente, por outro lado, o cinema europeu cada vez tem menos capacidade para se constituir como alternativa - muito limitado de recursos e, em larga medida, incapaz de se libertar de um pedantismo discursivo. Neste contexto o cinema de Peter Greenaway, por sinal, assumidamente pedante e intelectual, consegue uma originalidade, mediante um olhar estético e um particular génio de loucura. Em filmes posteriores chegará mesmo ao grotesco e sórdido, características que, para mim, aliás, sempre foram atractivas.
O argumento é curioso. Estamos numa zona rural do sul de Inglaterra (Wiltshire) em 1694. Um artista é contratado por uma dama da nobreza local (gentry) para fazer 12 desenhos que retratem a sua propriedade. O resultado dessa encomenda seria uma surpresa para o marido (ausente em viagem), que não deixaria de a apreciar, tendo em conta o particular orgulho que tinha nos magnificentes jardins. Para vencer a renitência do artista, a dama aceita as mais desproporcionadas exigências dele, incluindo... 12 favores sexuais. correspondentes a cada um dos desenhos. Para culminar tamanha arrogância, o artista exige ainda que tudo fique, preto no branco, contratualmente registado. A execução da encomenda é pontuada pelo rigoroso cumprimento das condições contratuais e ainda por extras - a filha da dama, desatendida pelo seu marido (um holandês petulante e pouco diligente no cumprimento dos deveres conjugais), é também disfrutada pelo afortunado artista. Dizer que artista é afortunado acaba por ser um equívoco em que o espectador cai inevitavelmente. O desenlace reserva-nos uma surpresa e o artista de arrogante afortunado acaba em vítima ingénua...
Greenaway é um arquitecto que derivou para o cinema. A sua obra tem um recohecível toque britânico de non-sense e também um hiper-barroquismo próprio de um espírito extravagante. Neste filme, além do mais, o barroquismo é literal, pelo facto da acção decorrer em cenários barrocos. Os diálogos e situações ressaltam ainda uma ironia própria de espíritos finos. Os cenários, só por si, são um espectáculo, desde as perucas aos jardins. A música de Michael Nyman é também espectacular - com uma feição exótica que resulta de um curioso casamento entre contemporaneidade e barroco.
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