quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Geografia íntima (22)

Lucília do Carmo (1920 - 1999)
Eis um dos melhores fados e uma das melhores fadistas de todos os tempos: Lucília do Carmo - Maria Madalena. A dimensão do vulto de Amália teve o inconveniente de obscurecer outros grandes nomes do fado, nomeadamente outras grandes fadistas, como Lucília do Carmo, mãe de Carlos do Carmo. Não que no seu tempo não tivesse tido projecção, só que não perdurou até ao dias de hoje como mereceria. Seja como for, a verdade, é que fadistas expressivas e carismáticas como esta, demonstram, por contraste, a anemia de algumas das jovens fadistas actuais... Cada fadista tinha, muitas vezes, um estilo próprio. O de Lucília do Carmo era inconfundível. Uma garra vibrante caracteriza esse seu estilo.
De alguma forma, a música, nos seus pormenores e detalhes é também credora de um tempo. Este fado é credor de um tempo em que as marcas de uma religiosidade popular e tradicional não se haviam diluído. Esta voz é credora de um tempo em que o enaltecimento da renúncia e do perdão constituíam ainda valores mobilizadores da alma de uma intérprete...



Lucília do Carmo - Maria Madalena

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Noites tropicais (15)

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Emílio Santiago - Bossa nova (2000)
A Bossa nova evoca os anos dourados do Brasil: os finais dos anos 50 e inícios dos anos 60. Parecia então que ninguém parava o Brasil... Foram anos de grande crescimento económico; da presidência de Juscelino Kubitschek de Oliveira; da primeira Copa do Mundo; da construção de Brasília... Anos em que crescia uma classe média à qual parecia destinado um futuro auspicioso. Hoje sabemos que foi, em larga medida, uma ilusão. Mas foi da classe média-alta citadina que brotou a bossa-nova. Como uma espécie de metáfora de bem-estar material e espiritual. É certo que teve abundantes fontes populares de inspiração, mas sem perder, de facto, o seu carácter elitista. A imagem aplica-se perfeitamente aos "pais fundadores": João Gilberto e Tom Jobim. O imediato êxito que tal produto obteve nos Estados Unidos consolidou ainda mais esse carácter. Tornou-se, assim, uma das imagens de marca da música popular brasileira e praticamente todos os seus grandes nomes não prescidem de, no mínimo, lhe prestar intermitentes homenagens. O que Emilío Santiago faz neste álbum está longe, portanto, de ser inovador, tanto mais que ao longo da sua série de álbuns Aquarela brasileira a bossa nova está bem representada. Porém, entre muitos clássicos e outros menos clássicos do género, este álbum demonstra melhor do que qualquer outro que as potencialidades da sua voz se coadunam como poucas à cadência suave e quente da bossa. A aveludada orquestração reforça ainda mais a suavidade e o calor.
Um dos melhores resultados deste dispostivo pode ser saboreado no tema
Doce viver, de Nelson Motta. Ainda por cima trata-se de um hino nostágico às delícias da juventude, daquela juventude privilegiada que frequentava as praias de Leblon e Ipanema. Nada melhor se ajusta à noção de anos dourados. É uma evocação biográfica e, sabendo como Nelson Motta, conviveu intimamente com o núcleo fundador da bossa, pode-se dizer que é um testemunho do ambiente em que ocorreu essa bem-aventurada criação.

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Emílio Santiago - Doce viver in Bossa nova (2000)

Noites tropicais (14) (7 remake)

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Emílio Santiago - Beija-flor (1998)
A música popular brasileira teve sempre ampla difusão em Portugal. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proprcional à da origem. Se assim fosse, Emílio Santiago seria cá mais conhecido. Sabe-se como as vozes negras têm muitas vezes um travo bem identificativo. Pois, esta voz é um bom exemplo. Encaixa-se perfeitamente no tópico de "negão" - quente e poderosa. Diga-se que tais qualidades são apropriadas para a bossa nova e para o samba-canção... Não surpreende, portanto, que no seu repertório haja frequentes incursões nestes géneros.
Este álbum é posterior à série de álbuns Aquarela Brasileira, ao longo da qual o cantor se espraiou por clássicos da bossa e, sobretudo, do samba-canção. Foi um prolongado exercício nostálgico, comercialmente compensador. Contudo, esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. Com efeito, a sistemástica utilização do medley e de arranjos convencionais caracterizam a série Aquarela. As suas qualidades de intérprete acabariam por ser melhor aproveitadas nos últimos álbuns, os quais reflectem conceitos de produção mais refinados. Beija-Flor está produzido por Mazzola e é um trabalho elaborado, bem acabado e coerente. Apesar da presença de canções de compositores mais jovens (Lulu Santos, Chico César), há algumas de compositores mais antigos (Ivan Lins), alguns temas clássicos da canção brasileira e, mesmo um dos meus boleros preferidos, Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero. Há grande variedade de interpretações deste famoso bolero, pois a que aqui se apresenta é excelente. Enfim, para este tipo de vozes o bolero vem mesmo a calhar... Contudo, o ponto mais alto deste álbum de elevado valor médio, está em temas genuinamente brasileiros, entre as quais destaco o clássico Brigas.
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Emílio Santiago - Brigas in Beija-flor (1998)

domingo, fevereiro 18, 2007

Memória do futebol (5)

A litania sobre o futebol português
Desde que Benfica e Sporting deixaram de dominar o futebol português, a comunicação social tem alimentado uma recorrente litania sobre o seu valor. São múltiplas as suas vertentes. A mais significativa incide na tentativa de descredibilização do mérito das vitórias do FC Porto. Em prol de uma cruzada sensacionalista são amplificadas sistematicamente todas as suspeitas que podem ir nesse sentido. Contudo, outras vertentes não deixam de ser exploradas, como, por exemplo, um suposto processo de crescente desinteresse do público português pelo futebol. Em boa verdade, em relação a estes argumentos deve-se dizer que existem dados objectivos. São números e estes, em larga medida, relativizam-nos ou, inclusivamente, desmentem-nos de modo devastador.
Todas os elementares dados demonstram, por exemplo, que a difusão de jornais desportivos aumentou dramaticamente nos últimos trinta anos (jornais que além do mais passaram a diários). O mesmo se diga das audiências televisivas do futebol (tendo como comparação apenas as que na actualidade correspondem às transmissões em sinal aberto), que, além do mais, se tornaram muito mais frequentes. O peso relativo dos espaços publicitários associados a estas transmissões, em relação ao bolo publicitário global, aumentou exponencialmente. Tudo isto significa que o futebol na televisão não só tem mais espectadores, como o impacto destas transmissões na sua vida é maior. A publicidade e o mercado publicitário conhecem bem este fenómeno de dependência futebolística, traduzindo-se este facto, por vezes, em saturação... Contudo, há uma ladainha com que constantemente nos matraqueiam: as pessoas já não vão aos estádios, dizem-nos repetidamente. Pelo menos, em comparação com o resto da Europa não se pode dizer isso. Mas, tampouco se pode dizer isso tendo em conta os valores médios dos últimos anos.
Em comparação com o resto da Europa, os índices relativos às nossas áreas metropolitanas só ficam aquém dos correspondentes às áreas metropolitanas da Escócia, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Na globalidade, não se pode dizer que sejam inferiores aos da Itália ou Espanha. São superiores aos da França e Bélgica. São muitíssimo superiores aos da Irlanda, Suiça, Áustria, Grécia, Turquia e todos os países do leste! Sobre isto, oportunamente, avançarei com dados concretos. Entretanto, avanço com os valores médios das assistências nos últimos anos do 1º escalão do futebol português:

Médias da 1º Liga:
1999-00: 8.637;
2000-01: 7.382;
2001-02: 8.098;
2002-03: 7.012;
2003-04: 9.468;
2004–05: 10.624;
2005–06: 10.600.

Médias do Benfica:
1999-00: 27.706 (3);
2000-01: 27.206 (1);
2001-02: 29.924 (1);
2002–03: 22.541 (2);
2003-04: 28.395 (3);
2004–05: 35.053 (2) (campeão);
2005–06: 43.057 (1).

Médias do FC Porto:
1999-00: 22.029 (3) (campeão);
2000-01: 17.776 (3);
2001–02: 21.159 (3);
2002–03: 28.248 (1) (campeão);
2003-04: 34.143 (1) (campeão);
2004–05: 36.038 (1);
2005–06: 38.679 (2) (campeão);

Médias do Sporting:
1999-00: 31.640 (1) (campeão);
2000-01: 29.887 (2);
2001–02: 30.958 (2) (campeão);
2002–03: 14.789 (3);
2003-04: 25.660 (2);
2004–05: 19.000 (3);
2005–06: 28.824 (3).

Digamos que numa interpretação pessimista, o máximo que se pode dizer é que os novos estádios inverteram uma eventual tendência de quebra. E que a evolução dos grandes compensa de sobra eventuais quebras dos demais clubes.
O que se deve discutir não é um hipotético desinteresse do público pelo futebol, mas sim a sua matriz de paixão clubista e o que tal significa em Portugal, onde existe uma concentração absolutamente hipertrofiada dessa paixão nos três grandes.

Fonte: http://www.european-football-statistics.co.uk/attn.htm

sábado, fevereiro 10, 2007

Memória do futebol (4)

SL Benfica entre os clubes mais ricos

No post "Memória do futebol (2)", a propósito da patética campanha de afirmação do SL Benfica como "maior clube do mundo", com base na certificação do seu número de sócios, desmistifiquei tal intuito e apresentei como uma alternativa mais razoável a lista anual publicada pela Deloitte com os clubes mais ricos do mundo. Conclui esse post escrevendo o seguinte:
"No que diz respeito a clubes portugueses, só esteve próximo da lista o FC Porto. Passou, episodicamente pelos 5 lugares adicionais (ou seja, entre o 21º e o 25º lugar), por força da campanha que lhe deu o título europeu e os correspondentes prémios financeiros. Tal sucedeu em 2004. Não há perspectivas razoáveis que possa voltar a suceder a curto ou médio prazo com um clube português."

Ora, sucede que a lista recentemente publicada, referente a 2006, desmentiu a minha profecia. O SL Benfica atingiu o 20º lugar. Na verdade, excluindo uma dúzia de clubes da parte superior da tabela, cada vez mais, uma boa campanha na Liga dos Campeões é um factor decisivo para entrar nos restantes lugares da tabela. Este factor e o dos direitos televisivos são decisivos. Sob o ponto de vista conjuntural houve uma boa campanha na Liga dos Campeões. Sob o ponto de vista estrutural, pois se há algum clube em Portugal com capacidade para aparecer na lista é precisamente o SL Benfica, pela dimensão da sua base de apoio. Aliás, surpreende é que, desde 2002, só no ano passado a sua assistência média voltasse a ultrapassar as do FC Porto, com o magnífico número de 43.057 espectadores, que o situa entre os grandes da Europa e confirma uma tendência de subida, ano após ano.
Independentemente da grandeza estrutural do SL Benfica, há alguns factores a ter em conta para compreender a, ainda assim, algo inesperada promoção. Um factor decisivo é a crise do futebol italiano, a qual se traduz no desaparecimento da lista do SS Lazio e do AC Parma - o primeiro, note-se, até ao ano passado era um habitual dos primeiros lugares. Depois, há ainda a anotar a não qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões do CF Valencia e do Celtic, habituais da parte inferior da tabela.
Sublinhe-se, que a lista é um apuramento de receitas (receitas regulares, excluindo o valor das transferências), não de encargos. Ou seja, mais do que um retrato da saúde financeira, é um retrato (e bem fidedigno) das suas potencialidades financeiras.
Lista de 2006 (entre parêntesis a posição no ano anterior):
01 (01) Real Madrid - - - - - - - - - €292.2m
02 (06) Barcelona - - - - - - - - - - €259.1m
03 (04) Juventus - - - - - - - - - - - €251.2m
04 (02) Manchester Utd - - - - - - €242.6m
05 (03) AC Milan - - - - - - - - - - - €238.7m
06 (05) Chelsea - - - - - - - - - - - - €221.0m
07 (09) Inter - - - - - - - - - - - - - - €206.6m
08 (07) Bayern - - - - - - - - - - - - €204.7m
09 (10) Arsenal - - - - - - - - - - - - 192.4m
10 (08) Liverpool - - - - - - - - - - -€176m
11 (15) Olympique Lyon - - - - - -€127.7m
12 (11) AS Roma - - - - - - - - - - - 127m
13 (12) Newcastle Utd - - - - - - - 124.3m
14 (14) Schalke 04 - - - - - - - - - - €122.9m
15 (13) Tottenham Hotspur - - - €107.2m
16 (na) Hamburger SV - - - - - - - €101.8m
17 (17) Mancheter City - - - - - - -€89.4m
18 (na) Rangers - - - - - - - - - - - - €88.5m
19 (na) West Ham Utd - - - - - - - 60.1m
20 (na) Benfica - - - - - - - - - - - - -€58.8m

Ver relatório detalhado em: Deloitte Money League 2007

Il bel paese (11)

Amalfi
A cidade histórica de Amalfi está situada no Golfo di Salerno, na parte sul da peninsula de Amalfi / Sorrento, a cerca de 50 Km de Nápoles. A costa amalfitana é escarpada e de extraordinária beleza. Sucedem-se os lugares de referência, onde gente endinheirada e de bom-gosto tem o privilégio de possuir villas de estilo clássico ou fin de siécle.

Il bel paese (10)


Zizi Possi - Per amore (1997)
Para quem retém num lugar privilegiado do seu espírito uma ideia de Itália romântica, este videoclip poderá ser um objecto de culto. Com um pano de fundo de melodia e voz dulcíssimas, aqui se congregam todos os correspondentes sinais desse lugar-comum, diríamos que... em excesso. Há uma desmesurada teatralidade e até o cenário, se, porventura, real, parece intrinsecamente cénico. Seja cenário ou seja real, a luxuosa villa e a paisagem de Positano (ou algum outro abençoado recanto da costa amalfitana) são o vislumbre do que pode ser o paraíso. Com tal música e paisagem, a realidade é, aliás... dispensável.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Outro Brasil (4)

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Zizi Possi - Per amore (2000)
Zizi Possi (Maria Izildinha Possi - São Paulo, 1956) é um dos nomes mais importantes da MPB. É uma paulista de ascendência italiana. Nasceu e viveu no bairro do Brás, o mais característico lugar italiano de São Paulo. Algo surpreendentemente, nos finais dos anos 90 começou a explorar o filão italiano. Já tinha então consolidado uma imagem refinada, através de álbuns como Estrebucha baby (1989) e, especialmente, Sobre todas as coisas (1991) e Valsa brasileira (1993). Nesses álbuns era patente a sua formação musical numa marca de qualidade muito própria, identificada por um ambiente onde sobressaíam voz e piano - voz que, sendo delicada, foi adquirindo mais expressividade.
Note-se que a sua carreira nunca se limitou à edição discográfica. Foi incorporando espectáculos, aliás, muito bem acolhidos pela crítica. Eram louvados, especialmente pela qualidade da
encenação, de seu irmão, José Possi Neto, a qual reforçava as qualidades interpretativas da artista, para além das estritamente musicais.
Per amore foi, assim, não só um álbum, mas também uma série de espectáculos. Este projecto, provavelmente dirigido à comunidade ítalo-descendente, constituiu o maior êxito comercial da sua carreira. O DVD aqui em apreço regista um dos espectáculos (em São Paulo) e acrescenta dois videoclips. Baseia-se num repertório tradicional napolitano, entremeado com alguns standards da música ligeira italiana dos anos 60 e 70, como Ho capito che ti amo, de Luigi Tenco. A interpretação e arranjos são do mais cool que se pode conceber para o género, com as vantagens e desvantagens inerentes (mais aquelas do que estas)...
Tenho para mim que, sendo um projecto de grande qualidade, como necessariamente decorre de uma artista deste nível, não alcança o nível mais alto da sua carreira genuinamente inserida na
MPB. Com efeito, não deixa de ser um pastiche, ainda que... de raro bom-gosto!

Web: Página oficial
Zizi Possi in Wikipedia

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Zizi Possi - Ho capito che ti amo in Per amore (1997)