quinta-feira, dezembro 23, 2004

Boulevard nostalgie (18)

CD: Charles Aznavour - La Bohème (1965)
Os anos 60 são os melhores anos de Aznavour. A sua voz estava na plenitude e são de então os seus maiores êxitos. Eram tempos em que os tops se compatibilizavam com a qualidade e em que o pop/rock anglo-saxónico ainda não dominava esmagadoramente. Nese tempo, portanto, Aznavour estava longe de se limitar a ser um fenómeno do mundo francófono, tinha uma grande projecção mundial (como Dalida e Bécaud, por exemplo).
La Bohème é de 1965 e será uma das mais belas canções de sempre. O seu lirismo é indissociável da expressiva interpretação de Aznavour. Também no álbum se encontra um outro tema excepcional, Paris au mois d'août - que é genuinamente aznavouriano. Este CD reúne não apenas os temas do álbum original, mas também mais algums outras editados em EP ou single entre 1963 e 1966.
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Boulevard Nostalgie (17)

Charles Aznavour (Chahnour Varenagh Aznavourian)(Paris, 1924)
Se há voz com um timbre carismático, a de Aznavour é uma delas. Se a de Sinatra seduz pelo poder, a de Aznavour seduz pelo calor expressivo. É um intérprete por excelência de canções e a prova de como em pouco mais de três minutos se pode transmitir o mais alto prazer da arte musical. Nada é banal na sua voz. Mais do que ninguém (com excepção de Edith Piaf), representa as virtualidades da chanson. E curiosamente, em rigor, não é um francês puro... Descendente de arménios exilados (a família Aznavourian foi obrigada pelos horrores do genocídio arménio a uma errância sem destino definido), nasce em Paris por acaso. Mas, seja lá como for, Aznavour é intrinsecamente francês!
Nas nossas FNACs apareceu agora a sua obra integral (L'Intégrale) reunida numa enorme caixa que é uma peculiar réplica do Arco de Triunfo. São 44 álbuns, 786 canções, 64 páginas e... 700 euros. Sendo eu comprador compulsivo de CDs, DVDs e livros, assim estoirando, mês após mês, o meu salário quase até ao último cêntimo, senti-me tentado a elevar qualitativamente a incontinência com a aquisição de tão extravagante produto. Mas contive-me! (héllas, que remédio...)
A página oficial de Aznavour é monumental, mas há outras muito boas também. Eis um artista que está representado na rede a um nível verdadeiramente correspondente ao seu valor!

American Dream (3)

Toponímia Francesa na América do Norte
O sonho americano, antes de se concretizar anglo-saxonicamente na forma individualista e competitiva de encarar a vida, foi um sonho vago, assente num Novo Mundo de recursos ilimitados, com oportunidades para os que arriscassem passar o Atlântico. Neste sentido, começou por ser uma aventura de espanhóis (El Dorado); foi de portugueses (bandeirantes do sertão brasileiro) e de holandeses; e foi também de franceses...
Até meados do século XVIII a América do Norte era um Novo Mundo tripartido entre Espanha (Florida, West e Far West), Inglaterra (Costa Leste e Norte) e França (Mid West). Na verdade, mais até do que a Espanha, a França estava envolvida num consistente projecto de colonização da América do Norte. Enquanto o Império Espanhol, espraiando-se por vastidões de todas as Américas, deixara um pouco ao abandono os seus longínquos territórios do Oeste, a França pós-Richelieu, potência de primeira grandeza, concentrara a parte decisiva das suas energias ultramarinas no esforço de garantir uma forte presença no Centro e no Nordeste. Em vésperas da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) dominava todo um conjunto de territórios a oeste dos Apalaches, que configuravam um arco que se estendia desde as margens do São Lourenço (Québec) até ao delta do Mississipi (Louisiana). Mais importante ainda é saber que nas extremidades deste arco havia fortes núcleos de colonização com tendência para se expandirem. Eram núcleos connstituídos, sobretudo, por empreendedores huguenotes. Nos territórios intermédios havia uma presença militar que seria superior, em qualidade e quantidade, à dos ingleses na Costa Leste. Havia também comerciantes franceses que exploravam rotas assentes no comércio de peles e, sobretudo, importantes núcleos de jesuítas franceses. Estes últimos conseguiram cristianizar e afrancesar vários povos índios, quer do ramo algonquíno, quer do ramo dos nómadas das pradarias centrais. Note-se que a maior parte dos algonquinos lutou ao lado dos franceses na Guerra dos Sete Anos.
Perante esta realidade, em meados do século XVIII, qualquer projecção sobre o futuro da América do Norte, poderia imaginar com razoabilidade, que à França estaria reservado o destino de potência dominante. A Guerra dos Sete Anos desfaria qualquer possibilidade de tal vir a concretizar-se. Mas, dos tempos anteriores ficaram abundantes marcas: o Québec, como comunidade homogénea francófona; a Louisiana, com a sua herança cultural francesa; a nomenclatura de povos índios, como Cheyenne e Assiniboine, que denotam uma transcrição pela grafia francesa; a toponímia. Em relação a este último aspecto, vejamos alguns exemplos, sem ter em conta o Québec e sem pretender ser minimamente exaustivo:
Detroit (1701 - Antoine de Cadillac funda Pontchartrain de l'Étroit), Marquette, Sault Saint-Marie, Pontiac, Cadillac, Charlotte, Saint-Claire (Michigan); La Crosse , Fond du Lac (Wiscosin); Terre Haute (Indiana); Belleville, Champaign, Du Quoin, Rochelle (Illinois); Des Moines, Dubuque (Iowa); Saint-Louis , Mâcon, Cape Girardeau (Missouri); Bâton Rouge, Thibodaux, Laplace, Plaquemine, Ville Platte, Abbeville (Louisiana).

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Viagens (3): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (3)

Notas de férias: Habitações
A grande maioria da população norte-americana vive em habitações unifamiliares, em madeira ou aglomerados sintéticos com madeira, de construção por módulos pré-fabricados. O resultado é contraditório. Por um lado, são, geralmente, bonitas, amplas, muito confortáveis (quentes no inverno; frescas no verão), mais protegidas da humidade e económicas. Por outro lado, pelo menos para mim, não deixam de dar a sensação de insegurança, na medida em que um simples caminhar pelo soalho implica algum estremecimento da estrutura e a abundante presença da madeira sugere vulnerabilidade a incêndios. Para quem está habituado à nossa realidade é difícil perder uma sensação de precaridade. Sensação que é reforçada quando se observa que, pelo nenos naquela zona de New Jersey, quase toda a gente tem casa alugada e não passa pelo plano de vida dos jovens comprar casa. Na verdade parece existir uma grande facilidade em mudar de casa - mesmo na comunidade portuguesa concentrada em Ironbound (Newark) é comum a mudança de casa sem sair dessa zona. Percebe-se, desde logo, que existe um mercado de habitação para alugar, o que implica uma vida preparada para mudanças. Este desprendimento do lugar onde se vive é, aliás, um símbolo de uma mutabilidade social que pouco tem a ver com os padrões da sociedade portuguesa. É curioso observar como os portugueses aí instalados se adaptam facilmente a esse estilo de vida.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Dancing Days (10)

Van McCoy (1940-1979)
Precocemente desaparecido, com apenas 39 anos, Van McCoy permanecerá, no entanto, sempre ligado ao auge do Disco Sound. A sua carreira musical, embora curta, foi muito preenchida, sobretudo como compositor e produtor de grupos pop (The Shirelles - anos 60) e soul (The Styilistics - anos 70). Mas, em 1975 estoira com um êxito absoluto, que se tornará um dos mais emblemáticos do Disco Sound: The Hustle (mais de 8 milhões de singles vendidos!). A dimensão deste fenómeno fez obscurecer a sua profícua trajectória. Ainda hoje, este tema permanece como detendo uma sonoridade das mais identificadoras dos anos 70...

Dancing Days (9)

CD2: KC and the Sunshine Band - 25th Anniversary Collection (1999)
No Disco Sound, poucos grupos tiveram tanta relevância como este. No que diz respeito a tops, nenhum alcançou tantos êxitos, nem mesmo os Bee Gees. A partir da Florida, o grupo de Wayne "KC" Casey (um branco...), fez um som negro ligeiro, para dança, mesclado com algumas referências latinas. Comercialmente foi um produto que se aguentou na primeira linha do sucesso entre 1975 e 1984. Ou seja, até para além do período áureo do Disco Sound. No USA Top40 (Singles) teve cinco #1 : Get down tonight (1975); That's the way (I like it) (1975); Shake your booty (1976); I'm your boogie man (1977); Please don't go (1979). O arrebatador Give It Up, que não teve o mesmo sucesso (#18), é de 1984.
A sua importância está bem presente nos nostálgicos do Disco Sound, tal como se pode verificar nesta lista do sítio Seventies Dance Music Page.

Dancing Days (8)

CD2: Disco / 40 Grandes Clássicos do Disco Sound (2004)
Esta compilação foi feita para o mercado português e em boa-hora, já que, entre nós, nunca se deixou de fazer sentir o eco de uma remota censura sobre o disco sound e, portanto, nunca abundaram iniciativas que viessem ao encontro da nostalgia disco. Tem este mérito básico, mas não deixa de ser pertinente observar que a opção por um único tema por artista, se tem alguma lógica, não deixa de acarretar inconvenientes, pois não dá o devido peso aos nomes mais significativos. Menos compreensível é a ausência dos Bee Gees, dos Boney M, com o poderoso Daddy Cool, ou de Peaches & Herb. Estes factores constituem um dano irreparável para a sua representatividade. Também é de lamentar a má qualidade audio de alguns temas. Contudo, há coisas muito positivas. A saber: o non-stop na ligação entre os temas, que é totalmente adequado ao género, sugerindo o ambiente de discoteca; a inclusão de certos temas emblemáticos, que no seu tempo não tiveram aqui a correspondente repercussão do seu êxito nos Estados Unidos. Neste último caso destaco: KC & The Sunshine Band - That's the Way (I Like It); Van McCoy - The Hustle; Hot Chocolate - You Sexy Thing; Patrick Juvet - I Love America; Lipps Inc - Funkytown. ~
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sábado, novembro 27, 2004

Vintage (2)

A Corda (Rope)
A obra de Hitchcock é reconhecida pelo público e pela crítica. Mas o mestre do suspense tem também filmes menores. Não são esses que geralmente vêm à memória quando evocamos a sua filmografia. Há um, porém, que está longe da primeira linha do reconhecimento e não se pode dizer que seja um filme menor. É A Corda (Rope) (1948). A trama é original, embora haja alguns outros filmes de Hitchcock tão ou mais originais. A forma como o filme é feito, nomeadamente a direcção de actores e, sobretudo, a composição do ambiente é que lhe dão um carácter insolitamente macabro. Tecnicamente também é um filme insólito, na medida em que constitui um exercício de virtuosismo - o tempo da acção corresponde ao tempo real e é filmado sempre no mesmo plano (com a mesma câmara, que se limita a correr nos carris). Ora, sucede que isto não é apenas um capricho técnico, na medida em que tem incidência no adensamento do ambiente macabro.
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Vintage (1)

Frank Sinatra - In The Wee Small Hours (1955)
É unânime entre os conhecedores do percurso musical de Frank Sinatra: o seu apogeu corresponde ao período Capitol (anos 50). Foi então que coincidiram no mais elevado grau dois factores: uma timbre vocal extraordinário e orquestrações exímias - uma boa parte das quais devem-se a Nelson Riddle. O LP aqui reeditado em formato CD reúne estes dois requisitos. Mas esta gravação é ainda particularmente importante pelo facto de ser, segundo parece, o primeiro álbum conceptual de sempre. Com efeito, até então, todas as gravações de longa duração eram um mero repositório do previamente editado em discos de curta duração - daí, aliás, a designação álbum. Assim continuou a ser, na esmagadora maioria dos casos, até ao momento em que The Beatles, Bob Dylan e outros nomes da primeira linha da pop/rock dos anos 60 e 70 impõem o álbum conceptual como paradigma e avançam para os álbuns temáticos.
O conceito de In The Wee Small Hours é uma ambiência musical e poética que converge numa linha que vai da melancolia à amargura, conduzida por reflexões suscitadas pela desilusão amorosa. A imagem da capa e o título sublinham o conceito: um Sinatra quarentão ensimesmado, de cigarro pendente na mão, numa rua deserta, no fim de uma noite que se adivinha de ter sido de desilusão... A homogeneidade musical percorre os 16 temas. Contudo, há dois que merecem destaque: What is this thing called love e Ill Wind - em ambos, mas particularmente no primeiro - brilha desde a entrada o clarinete de Nelson Riddle e uma voz magnificente no seu poder expressivo de interpretar o sentimento amargo da música e letra. Gravação feita ainda em mono, em meados dos anos 50, no alvorecer de uma nova era da música popular (germinava já o rock & roll...), este trabalho é um ponto de chegada e de partida.
Desta forma inicio a rubrica Vintage, na qual me proponho evocar música, cinema e literatura cuja qualidade, o tempo demonstrou estar acima de modas e gostos efémeros.
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Página Web (em reestruturação)

Soulsville (2)

CD2: Isaac Hayes - Shaft (1971)
DVD: Gordon Parks - Shaft (1971)
Se há algum filme cujo relevância advenha da sua BSO este é um deles. Composta por Isaac Hayes, representa um estilo e sonoridade de uma época. O tema principal, assente em wowows de guitarra eléctrica, acompanhados por um poderoso naipe de metais, é um eterno clássico, mas os restantes temas, quase todos instrumentais, são excelentes, com destaque para Do Your Thing - o mais jazzy de todos os de Isaac Hayes. No conjunto há muito poucos temas vocais, mas entre eles avulta Soulsville, que incide na questão social dos ghettos negros das grandes cidades norte-americanas.
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O filme, de Gordon Parks, protagonizado por Richard Roundtree, seria hoje encarado como um mero filme de Série B, não fora a BSO e o facto de ser a primeira vez em que o herói de um filme é um negro. De resto, a história é simples, dentro dos conhecidos cânones, mas produzida e realizada com honestidade, sem pretensiosismos descabidos. Em todo o caso, é um produto susceptível de proporcionar descontraída nostalgia. Diga-se que foi, na época, um êxito no mercado norte-americano, facto que originaria, aliás, duas sequelas.
Há um extra especial: uma sessão de gravação de Isaac Hayes e seu grupo, The Isaac Hayes Movement. É gratificante ter a oportunidade de o ver a tocar. Além disso, é curioso o contraste entre a sua calvície absoluta (avant la lètre) e a vasta cabeleira esférica (como estava então na moda entre a negritude norte-americana) dos restantes músicos. Também dá para perceber o virtuosismo da trupe, que brota de uma descontracção criativa um pouco ganzada, a qual pode deixar entrever, talvez, suspenso no ambiente, um certo cheiro a erva...
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Soulsville (1)

Isaac Hayes (1942)
Isaac Hayes foi um dos mais importantes nomes da Soul nos anos 70. Contudo, antes de se tornar conhecido como intérprete, a partir de 1969, tinha já uma trajectória como compositor do soul duo Sam & Dave. Tinha, inclusivamente, gravado e editado, como protagonista e intérprete, um LP (Precious, Precious 1967) - que só escaparia do anonimato nos anos 70. Na verdade, este descendente de escravos das plantações do Tennessee cedo procurou os caminhos da música, já que, ainda adolescente, tocava saxofone e cantava em night-clubs de Memphis.
A edição de Hot Buttered Soul (1969) assinala uma viragem na carreira de Hayes, alcançando um reconhecimento que se prolongou até finais da década de 70. A partir de então entra na obscuridade. A sua produção caiu em quantidade e qualidade, pelo menos até um efémero reaparecimento em meados de 90. A sua carreira passou a estar mais ligada ao cinema e TV - foi, por exemplo, uma das vozes de um personagem da série de animação para adultos, South Park.
Os anos 70 foram o auge da carreira musical de Hayes, que assentou numa Soul inovadora, construída com temas de longo (ou longuíssimo) desenvolvimento, com sofisticadas orquestrações e com a sua voz - ingredientes de acentuado cariz quente e amanteigado - hot buttered (seria preferível o termo aveludado...). Apesar de excelente compositor, Hayes atinge a plenitude nas versões de temas alheios. Neles, exerce uma transfiguração radical, já que os recria, tornando-os em algo completamente diferente do original. Alguns são geniais exercícios de decomposição e recomposição através de uma matriz hayesiana, única e inconfundível - é o caso de By The Time I Get to Phoenix (in Hot Buttered Soul); I Stand Accused (in The Isaac Hayes Movement); Our Day Will Come e The Look of Love (in To Be Continued); Never Gonna Give You Up (in Black Moses). Estes exemplos conduzem-nos, aliás, a um tópico crucial: as sequências faladas - raps. Foi a primeira vez que se utilizou o termo, podendo-se dizer que 10 anos antes da eclosão do Rap como género, já havia surgido, mas com uma feição bem distinta, com mensagens e formas sensuais ou mesmo eróticas. Os Ike's raps tornam-se uma imagem de marca e em certa altura da sua produção discográfica chegou a ser utilizada uma curiosa contagem (Ike's rap nº4, Ike's rap nº5, etc...).
O título do LP Hot Buttered Soul tornou-se designação extensível ao estilo. Este LP "fundador" e uma série de LP's subsequentes (todos com o selo da editora Stax) consolidaram-no. Entre eles avulta a banda sonora original (BSO) do filme Shaft, que representou o ponto mais alto da carreira de Hayes, correspondendo ao Óscar de melhor BSO (1971).

sábado, novembro 13, 2004

Boulevard Nostalgie (16)

DVD: Marco Ferreri - La Grande Bouffe (1973)
Nos anos 70 a produção cinematográfica europeia era dominada por uma sensibilidade esquerdista. Este facto, compreensível no contexto daqueles tempos, não deve levar-nos a ignorar o brilhantismo de alguns filmes. Efectivamente, se uma parte desse cinema ficou irremediavelmente datado, sucede, por outro lado, que muito do que de melhor foi feito, com espírito rebelde e iconoclasta, foi feito nesse tempo e não se imagina que pudesse ser feito agora... É o caso deste filme, de Marco Ferreri (mais um italiano afrancesado...).
O argumento é uma metáfora que encaixa no tipo de denúncia simplista dos vícios da sociedade burguesa. Esta que foi a forma mais comum de apresentar o filme na altura, é uma interpretação redutora. Com efeito, o argumento parece tocado por aquela graça anarco-surrealista que não anda longe do génio buñueliano. Mas se o argumento é um achado (um grupo de quatro burgueses, consumados gourmands e amantes dos prazeres da vida, que se encerram numa mansão para se empanturrarem com opíparos manjares, em sessão contínua até ao suicídio...), o casting e a realização dão-lhe um definitivo toque de génio. Quatro pesos pesados do cinema francês e italiano repartem o papel de sibaritas: Michel Picolli; Philippe Noiret; Ugo Togazzi; Marcello Mastroianni. A eles junta-se uma Andrea Ferreol que, com o seu perfil felliniano, no limiar de uma pungente obesidade, compõe um papel de gorda lasciva. A componente sexual é protagonizada por esta figura de nutridos seios e nádegas, com comportamento tão relaxado como a das suas carnes flácidas. Com efeito, a determinado momento, o garanhão do grupo (quem haveria de ser senão Marcello?) entende que o prazeres carnais não se devem restringir à mesa... Depois de, por encomenda pontual, ter usufruido dos serviços de jovens esbeltas, mas de todo alheias ao espírito do grupo, Marcello seduz Andrea, que se aproximara da cerca da mansão e convence-a (com facilidade…) a entrar no empreendimento.
Temos a sensação que estes grandes actores são deixados em roda livre. Aliás, significativamente, o nome dos personagens coincide com o nome dos artistas e o registo que cada um assume está de acordo com o imaginário que temos deles. Andrea é a parceira ideal - em rigor, não faz parte do grupo; aparece por lá e por lá fica, a instâncias de Marcello e perante a desconfiança inicial dos restantes três, que encaravam a reclusão com espírito misógino.
A decadência progressiva do grupo é patética! Algumas imagens são inolvidáveis, nomeadamente a morte de Michel Piccoli, suspenso num parapeito, em épico transe de libertação de gases... O patético acentua-se quando o instrumento viril de Marcello deixa de funcionar, suscitando nele um desconcertante desespero. Os quatro morrem de formas bizarras, mas Andrea sobrevive-lhes melancolicamente e volta para as suas funções docentes - a senhora era mestre-escola...
Para além de reflexões que pode suscitar a propósito de decadência, La Grande Bouffe foi um filme que associou Rabelais e Sade, estabelecendo-se num universo de íntima relação entre comida/sexo, prazer/dor - algo que só voltará a ser visto em algumas geniais excentricidades do realizador inglês Peter Greenaway.
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Boulevard Nostalgie (15)

LP: Herbert Pagani - Pagani a Bobino (1976)
Não foi feita ainda uma edição em CD desta gravação ao vivo de Herbert Pagani, o que é incompreensível, já que se trata de um trabalho excepcional. Pagani morreu em 1988, com apenas 44 anos, vítima de leucemia - uma desgraçada ironia para quem amava a vida e tinha uma conceito radicalmente optimista da condição humana. Aliás, uma vida que denota valores que foram sempre coerentemente assumidos como base inspiradora da sua arte, a qual não se reduziu à música. Eram valores que reflectiam uma sensibilidade libertária e ecologista, num empenhamento que era mais a um nível filosófico do que programático. A sua carreira foi feita quer no âmbito francês, quer no âmbito italiano, reflectindo o seu natural bilinguismo. Note-se que nasceu na Líbia no seio de uma família judia italianizada e que a sua vida adulta decorreu entre Itália e França.
O LP em apreço notabilizou-se, sobretudo, pelo tema L'Amitié - uma "hino instântâneo" que teve na época alguma repercussão. Contudo, está longe ser apenas um desfile de temas, já que obedece a um plano conceptual, construído em torno de valores e vivências do artista, num tom de arrebatado lirismo e emotividade. Ou seja, é um espectáculo que transcende o plano musical e que obedece a um guião de tipo quase teatral... Existem muitos temas musicais de elevada qualidade (destaco Leçons de Peinture, Serenade...) e declamações, que fazem a ligação entre eles. É esta intrínseca qualidade artistica que permite transcender o cliché da vulgata ideológica e confere intemporalidade.
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segunda-feira, novembro 08, 2004

Noites tropicais (6)

Zizi Possi - Sobre Todas as Coisas (1991)
Portugal teve sempre o privilégio de estar próximo da música brasileira, tendo aqui os seus artistas ampla divulgação e popularidade. Contudo, este facto pode iludir que alguns nomes importantes permanecem pouco menos que deconhecidos entre nós, o que é válido para a paulista Zizi Possi (de ascendência napolitana).
Sobre Todas as Coisas nasceu como show e só depois passou á condição de disco, o que se nota, aliás, em certos aspectos do seu conceptualismo. Note-se que a artista tem uma voz de grande beleza e é ao mesmo tempo pianista de formação clássica. Sobre esta base privilegiada, a partir de finais dos anos 80 (com Estrebucha Baby), a sua carreira beneficia de um salto qualitativo, com produções sofisticadas e com um cada vez mais apurado critério na escolha de repertório. No caso em apreço, os temas são standards da canção brasileira ou da autoria de nomes grados da MPB - é, portanto, um disco eminentemente brasileiro. Porém, acentua-se uma configuração intimista que se assume, por vezes, como recriação num plano de intenso lirismo e delicadeza. É um produto do mais refinado bom-gosto, parecendo ser estes adjectivos que naturalmente emanam da sua figura de sempiterna beleza...
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Viagens (2): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (2)

Notas de férias: Paisagem Urbana
Muitas das coisas relativamente surpreendentes que pude apreciar nessas férias em New Jersey já contava com elas. Contudo, uma das que verdadeiramente me surpreendeu foi a paisagem urbana. Não foi o facto de a esmagadora maioria das casas das zonas habitacionais serem vivendas unifamiliares de madeira - algo que já sabia de antemão, embora a sua proporção superasse o imaginado. Foi, isso sim, a amplitude de espaços e a quantidade de espaços verdes nas zonas habitacionais. Esta observação não é válida para Nova Iorque, propriamente dita, mas aplica-se a toda a zona norte do estado de New Jersey e, presumo, a toda a vastíssima área periférica da Grande Nova Iorque. Quando ressalvo o caso de Mannhathan, há que ter a noção da sua especificidade - uma ilha longuilínia com uma saturadíssima densidade urbana - e não esquecer que no seu centro se implanta aquele que deve ser o maior parque urbano do mundo - Central Park. Por todo o norte do estado de New Jersey as cidades não tem semelhança alguma com as cidades periféricas das áreas metroplitanas europeias. Estendem-se por vastas superfícies e consistem em aglomerados de vivendas no meio de baldios abertos (nos piores casos) ou no meio de autênticos bosques (nos melhores). As árvores e os revaldos estão presentes em grande quantidade. Pensava que este facto seria uma constante da América do Norte, mas que esta região seria uma das pontuais excepções. Assim não é. Passa-se o Hudson e o que mais há é espaço. Apesar da densidade populacional estar muito longe de ser baixa, não faltam espaços residenciais de grande sossego. O centro de cada uma dessas cidades suburbanas (com parcial excepção de Newark), limita-se a ser um cruzamento com semáforos e um par de edifícios de pedra e meia dúzia de lojas. A construção em altura é uma absoluta excepção que concide com estes pontos. As zonas residencias têm pouco comércio e um movimento escasso. Enfim, é um pleno contraste com Nova Iorque.

terça-feira, outubro 19, 2004

Geografia íntima (17)

GNR - Rock in Rio Douro (1992)
Este álbum dos GNR tem dois temas especiais: Sangue Oculto e Pronúncia do Norte. Neles, a voz semi-falsete de Rui Reininho contracena, respectivamente, com Javier Andreu (vocalista do grupo espanhol La Frontera) e com a essa vibrante mulher do Norte que é Isabel Silvestre. De resto, todos os outros temas são vulgares, revelando que cá, como em todo o lado, as fórmulas do pop/rock se foram esgotando a partir de finais dos 80... Mas esses dois temas são, de facto, especiais. O primeiro tem força genuína, sendo, além disso, um original diálogo em castelhano e português. O segundo, descontados muitos exemplos vindos da Galiza, é o "hino" mais apropriado que conheço para aquele mundo de brumas e granito que é o Norte. Em dueto com Reininho, a voz de Isabel Silvestre parece esvair-se num fio etéreo, mas há uma superior expressão emotiva nesse fio que impregna toda a canção, dominando-a. Além de que o tema assenta no enunciado da pronúncia do Norte como expressão de carácter - essa pronúncia que se recusa a emudecer as vogais e que transporta a expressão em sonoridade. O português que vem do mais fundo dos tempos...
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Geografia íntima (16)

Porto (1912)
Nos anos 60 ainda se captavam com facilidade imagens idênticas à da foto. Pelas vielas abarrotadas de vida, extravasando misérias e alegrias, havia canalha por todo o lado. A meio caminho entre o tempo da foto e esse tempo que conheci há um inesquecível filme que dá fé dessa realidade: Aniki- Bóbó...

Geografia íntima (15)

Porto (1912)
É o Barredo, mas podiam ser os Guindais ou a Bainharia - Alma granítica atravessando o tempo...

Geografia íntima (14)

Porto (1912)
É conhecido o tópico do "homem do Norte", mas, ainda mais justo seria o tópico da "mulher do Norte"... de porte altivo, carácter autoritário, rija têmpera e vernácula expressividade que evocam um mítico matriarcado céltico...
Esta foto foi tirada no Mercado do Anjo, desaparecido há muito. Estava situado no que hoje é a Praça de Lisboa, no lado oeste dos Clérigos.
Apesar da foto se reportar a um tempo que é o dos meus avós, conheço muito bem aqueles xailes de lã, aquelas longas saias rodadas, aquelas fisionomias...

Geografia íntima (13)

Porto (1912)
Esta Ribeira, pejada de carros de bois, não a conheci. Em todo o caso a minha Ribeira estava mais perto desta do que da actual. Não havia bares e restaurantes. Havia lojas onde se vendia bacalhau e polvo seco, com aquele característico cheiro salgado. Havia mercearias e casas de pasto. De manhã os gritos das vendedeiras dominavam o ambiente. Em muitas tardes de Verão a canalha de pé descalço atirava-se em mergulho para o rio.

Geografia íntima (12)

Porto (1912)
Ontem como hoje a face do Porto é a mesma: autenticidade, seriedade, solidez.
A meio caminho entre os Clérigos e a Ribeira, a igreja onde fui baptizado: A igreja da Vitória.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Dancing Days (7)

CD: Barry White - Barry White's Greatest Hits (1975)
Trata-se da reedição em CD de um LP antológico de 1975, o qual, portanto, concentra todos os grandes êxitos do tempo auge de Barry White, excluíndo, contudo, os que foram protagonizados pela sua Love Unlimited Orchestra.
Abre com os dois mais poderosos temas: What am I gonna Do with You (para mim, um hino intemporal...) e You're the first, the last, my everything. Pena é que, apesar da capa envergar uma estética concordante, o encarte seja pobre.
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Dancing Days (6)

Barry White (1945-2003)
A voz quente de Barry White, as suas composições e orquestrações foram um dos elementos mais identificadores do auge Disco Sound em meados dos anos 70. A um nível idêntico apenas chegaram os Bee Gees ou os KC & Sunshine Band. A junção de uma batida fortemente ritmada com um grandioso fundo orquestral, onde as cordas estavam em relevo, foi a receita que lhe trouxe êxitos sobre êxitos. Teve 4 temas no Top5 USA: Love's Theme (#1 - 1973)(com a sua Love Unlimited Orchestra); I'm gonna love You just a little more baby (#3 - 1973); Can't get enough of your love, baby (#1 - 1974); You're the first, the last, my everything (#2 - 1974). Todos estes temas são espectaculares e marcaram justamente uma era. Não por acaso, a título de exemplo, o último destes temas era o da promoção do canal SIC Gold. Incrível como uma fisionomia tão disforme (correspondente a muito mais de 100 Kg...) deu alma e forma a uma música popular, de amor e jovialidade. Barry White morreu há pouco tempo, mas ficará sempre como um dos ícomes dos anos 70.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Dancing Days (5)

CD: Grace Jones - Slave to the Rhythm (1985)
A jamaicana parisiense Grace Jones foi sempre em todos os domínios sinónimo de produção sofisticada. Os domínios foram ecléticos: moda, música e cinema... pelo menos. O seu corpo longuilínio e a sua face dura inspiraram experiências de produção imaginativas, normalmente em tons andrógenos. Na música, sempre sob orientação de produtores exímios, evoluiu desde o disco sound (onde irrompeu com uma espantosa versão hiper-inconoclasta de La Vie en Rose) até ao prenúncio das novas tendências da dance music. Esta gravação representa esse último ponto. Mais do que nunca, o verdadeiro protagonismo vai para o produtor, neste caso Trevor Horn e mais do que nunca Grace Jones é uma imagem, um pretexto... sugestivo e eficaz.
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segunda-feira, outubro 11, 2004

Boulevard Nostalgie (14)

Aimer à perdre la raison

Ah, c'est toujours toi que l'on blesse
C'est toujours ton miroir brisé,
Mon pauvre bonheur ma faiblesse
Toi qu'on insulte et qu'on délaisse
Dans toute chair martyrisée.

Aimer à perdre la raison
Aimer à n'en savoir que dire
À n'avoir que toi d'horizon
Et ne connaître de saisons
Que par la douleur de partir
Aimer à perdre la raison.

La faim la fatigue et le froid,
Toutes les misères du monde,
C'est par mon amour que j'y crois
En elles je porte ma croix
Et de leurs nuits ma nuit se fonde
Louis Aragon

Boulevard Nostalgie (13)

CD- Jean Ferrat - Ferrat chante Aragon (1971)
Este LP de Jean Ferrat é um perfeito exemplo de como a canção francesa é inexcedível na arte de adaptar poemas. Neste caso, Jean Ferrat faz um trabalho sublime com alguns dos mais conhecidos poemas de Louis Aragon. O lirismo das palavras é totalmente correspondido pela composição, arranjos e voz. Um particular estado de graça parece ter passado por aqui...
De notar que esta versão em CD corresponde à original, que é preferível a uma versão posterior, com arranjos diferentes.
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sábado, outubro 09, 2004

Argel - Cairo - Beirute (1)

Om Kalsoum (Umm Kulthum) (1904-1975)

Esta cantora egípcia (o seu nome pode aparecer em caracteres latinos de diferentes formas) é a maior figura da música árabe. O seu apogeu, nos anos 40 e 50, corresponde a uma era de expansão do cinema dos estúdios do Cairo, cuja expansão abrangia directamente todo o vasto mundo de língua árabe e indirectamente áreas linguístico-culturais limítrofes (turca, persa, paquistanesa...). Esse cinema era de conteúdo romântico e tinha quase sempre uma feição musical. Foi aí que Om Kalsoum se começou a afirmar como intérprete de referência. Viviam-se tempos de ideais pan-arabistas. O Cairo era então não só a capital cultural do mundo árabe, como o foco difusor desses ideais, que tinham encontrado em Nasser o seu paladino. Mas enquanto os desafios políticos nasserianos mobilizavam a opinião pública, os cinemas enchiam-se, levando aos corações mensagens de amor e desamor. Assim, Om Kalsoum chegou a ser ainda mais popular que o próprio líder e realizou de modo mais efectivo uma certa forma de pan-arabismo...
A sua extrema popularidade não foi, contudo, suficiente para passar as fronteiras ocidentais. Sucede que a canção árabe pouco tem de semelhante com a estrutura da canção popular ocidental. Basta dizer que o padrão standard de 3 minutos corresponderá a uma parte da introdução de uma canção normal de Om Kalsoum. O complexo desenvolvimento melódico e a aspereza da língua árabe dificultam ainda mais o acolhimento ocidental. É, evidentemente, uma questão de códigos culturais, mas é estimulante exercitar a nossa sensibilidade para romper essas barreiras. Ao longo de um tempo, que pode ir de 5 a 50 minutos, cada canção conta uma história sentimental de uma forma lenta, que joga com distintos cenários instrumentais e com um clímax de expressividade que as suas capacidades interpretativas conseguem ir graduando de forma precisa. Claro está, que o tempo destas canções não foi condicionado pelas necessidades da indústria discográfica - o formato EP e até LP não eram adequados - frequentemente, um LP acolhia uma única canção e a operação de virar o disco interrompia o natural desenvolvimento da sua audição. O tempo é aquele que advem de formas tradicionais, aqui e ali adaptadas às necessidades do cinema. Onde se capta melhor a valia expressiva desta música é em gravações ao vivo. Aquela que é a mais conhecida das suas gravações, Al-Atlaal, demonstra uma participação intensa do público, o qual não se coíbe de sublinhar o dramatismo da narrativa com arrebatados aplausos e interjeições. Os sofridos gemidos da "diva do Nilo" são, assim, amplificados pela plateia.
Página Web

Musseque (1)

Papa Wemba - Papa Wemba (N' fono yami)(1988)
A matéria musical aqui presente é o Sokous - género pop oriundo do Congo (Zaire). É o melhor álbum de música africana que conheço. Sem a rusticidade das produções feitas em África e sem o artificioso de algumas produções feitas na Europa. Diria que está no perfeito meio termo. Mas, acima de tudo há dois elementos essenciais: a poderosa cadência rítmica que sugere aquela África verdadeiramente selvagem e a voz vibrante de Papa Wemba, a qual reitera esse carácter, no melhor sentido que pode ter... Deve-se dar particular atenção ao tema Esclave, que é das coisas mais emocionantes que a música africana já alguma vez deu.
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segunda-feira, outubro 04, 2004

Boulevard Nostalgie (12)

CD: Salvatore Adamo - Adamo Vol 2 (La Nuit) (1965)
Antes de mais, este CD faz parte de uma colecção da editora francesa Magic Records que é um exemplo magnífico de como se pode reeditar velhos LP's de uma forma que é um exercício de reconstituição, pois existe o cuidado de recuperar o design original, que chega, inclusive, ao pormenor de dar à etiqueta do suporte a aparência do vinil. É, portanto, um produto adequado para coleccionadores ou simples nostálgicos. Diga-se, desde já, que este não é um dos melhores LP's de Adamo, contudo, apresenta uma particularidade: tem um tema cantado em italiano, Dolce Paola, que nunca teve versão noutro idioma. É um tema muito bonito que constitui uma dedicatória à princesa italiana do mesmo nome que tinha acabado de se casar com o herdeiro do trono belga. Note-se que os grandes êxitos de Adamo foram sempre originalmente cantados em francês, mas todos tiveram versões suas cantadas em italiano e espanhol. Algumas foram cantadas também em línguas tão insólitas como o japonês. Esta colecção da Magic Records apresenta algumas dessas versões comuns e exóticas como bonus tracks.
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Boulevard Nostalgie (11)

Salvatore Adamo
Adamo nasceu na Sicilia, mas, ainda na primeira infância, os seus pais emigraram para uma cidade industrial da Valónia, Bélgica. Nos anos 60 tornou-se um dos maiores nomes da música popular francófona, com grande projecção mundial. Foi um ídolo - o maior que a Bélgica jamais alguma vez teve, com a licença de Jacques Brel, que, enfim, teve um registo artístico diferente (curiosamente outro ídolo belga seu contemporâneo foi Rocco Granata, também italo-descendente) A voz melancólica ajustava perfeitamente com um ar angelical, sendo esta a base de uma pose romântica que consituiu o seu sucesso. Contudo, nesses tempos, estes fenómenos de popularidade não implicavam necessariamente má qualidade musical. Foi sempre um excelente cantor, servido por magníficas composições.

Boulevard Nostalgie (10)

Les Cornichons
Eis a prosaica letrinha de Les Cornichons (provavelmente com algum duplo sentido...) - canção que tem tanto de simples como de brilhante. Curiosamente parece que a versão original é norte-americana, mas, dessa, pouco transcendeu...
On est parti, samedi, dans une grosse voiture,
Faire tous ensemble un grand pique-nique dans la nature,
En emportant des paniers, des bouteilles, des paquets,
Et la radio !
Des cornichons
De la moutarde
Du pain, du beurre
Des p'tits oignons
Des confitures
Et des oeufs durs
Des cornichons
Du corned-beef
Et des biscottes
Des macarons
Un tire-bouchons
Des petits-beurre
Et de la bière
Des cornichons
On n'avait rien oublié, c'est maman qui a tout fait
Elle avait travaillé trois jours sans s'arrêter
Pour préparer les paniers, les bouteilles, les paquets
Et la radio !
Le poulet froid
La mayonnaise
Le chocolat
Les champignons
Les ouvre-boîtes
Et les tomates
Les cornichons
Mais quand on est arrivé, on a trouvé la pluie
C'qu'on avait oublié, c'était les parapluies
On a ramené les paniers, les bouteilles, les paquets
Et la radio !
On est rentré
Manger à la maison
Le fromage et les boîtes
Les confitures et les cornichons
La moutarde et le beurre
La mayonnaise et les cornichons
Le poulet, les biscottes
Les oeufs durs et puis les cornichons

Audio Sampler Amazon.fr (track 5 disco 1)

Boulevard Nostalgie (9)

Nino Ferrer - Nino Ferrer (2001)

Nino Ferrer nasceu em Génova, Itália, mas fez o mais importante da sua carreira artística em França, apesar de não ter deixado de sustentar uma carreira italiana, em paralelo. Nos anos 60 obteve grande sucesso com temas como Les cornichons, Agata e Mirza. Estava plenamente inserido na onda pop desses tempos. Contudo, desde o início tornou-se patente a sua versatilidade, quer pelo carácter jazzy que imprimia a muitas das suas composições, quer pela sua vocalização soul, quer ainda pelo seu talento em compor baladas melódicas. Com efeito, foi o autor do tema C'ést irréparable, que sairia do anonimato como Un anno d'amore, versão italiana popularizada por Mina e, posteriormente, ainda mais popularizado por Luz Casal na versão espanhola, Un ano de amor. Dando plena expressão a essa versatilidade, a partir dos anos 70 procurou caminhos musicais vanguardistas e explorou também outras áreas artísticas, com destaque para a pintura. Espírito atormentado, acabou por se suicidar, deixando grata memória entre os seus requintados fans.
Esta colectânea ilustra o conjunto da trajectória da sua carreira francesa. Não é um simples CD, já que este está integrado num pequeno livro com abundante documentação sobre o artista e excelente grafismo.


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Web: Página Oficial

domingo, outubro 03, 2004

Noites tropicais (5)

Roberto Carlos - Detalhes (1971)
Para mim, Roberto Carlos é mesmo O Rei... da MPB (Música Popular Brasileira). É incompreensível que quando se apresente a MPB não se saliente, desde logo, este facto. Não se entende que a sua carreira, por ter assentado numa trajectória de êxito comercial, seja menosprezada. É um profissional exemplar, além de que as suas qualidades interpretativas jamais recorreram ao artificial e o seu posicionamento musical, durante os primeiros 10 anos da sua carreira, esteve na vanguarda ou próximo.
Este CD é a reedição de um LP que, não sendo o melhor da sua imensa discografia, tem o privilégio de abrir com Detalhes - para mim, uma das mais belas canções de sempre! É a "jóia da coroa" da profícua dupla Roberto Carlos/Erasmo Carlos. O tom íntimo da interpretação, a bela simplicidade da melodia, a melancólica amargura da letra, fazem um conjunto ímpar.
Há um outro tema que merece destaque, é o último: Amada Amante - uma proclamação amorosa, em toada reiterativa, com uma sonoridade própria daquela época (com protagonismo no órgão Hammond), que me recorda a rádio e os bailes populares daqueles tempos...
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Noites tropicais (4)

Walter Wanderley - Rain Forest (1966)
A colecção Verve by Request tem reeditado luxuosamente em CD (reproduzindo, em encarte, o grafismo original) os LP's produzidos por Creed Taylor nos anos 60. Este foi o responsável pelo salto qualitativo da Bossa Nova ao produzir as extraordinárias experiências de fusão com João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz. A ele se deve também a produção de Walter Wanderley . Este, pernambucano de origem, era um organista e pianista de night clubs de São Paulo e foi dos primeiros a entrar na onda da Bossa Nova, mediante a sonoridade, então moderníssima, do órgão Hammond. Gravou com Astrud Gilberto, mas depois iniciou uma carreira exclusivamente instrumental. Este é o seu primeiro LP dessa fase. O sucesso foi enorme, por causa de Summer Samba, de Marcos Valle, o qual atingiu o Top40. Como as notas deste órgão electrónico soam tão quentes! Wanderley ficou para sempre nos EUA, instalando-se na California, onde viria, aliás, a falecer em meados dos anos 80.
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sábado, outubro 02, 2004

Geografia íntima (11)

Amadora (193? 194?)
Esta panorâmica aérea incide na parte Leste do Centro. Em primeiro plano, junto à linha de caminho-de-ferro, está a fábrica de cintas e espartilhos Santos Matos. Lembro-me bem desse edifício, contudo tinha deixado as suas funções fabris muitos anos antes de eu o conhecer. Vislumbra-se, no centro do postal, o edifício (branco) onde hoje está instalada a Agência Natália. São muito poucos outros exemplos de casas sobreviventes, mas são numerosos aquelas de que guardo memória. Note-se que os terrenos que hoje pertencem à Academia Militar, na parte superior do postal, correspondiam ainda nesta altura (anos 30, 40?) ao aeródromo que notabilizou a Amadora na primeira metade do século XX..

Geografia íntima (10)

Amadora (193? 194? 195?)
Foi esta a origem da moderna Amadora e causa seu do desenvolvimento: a estação de caminhos-de-ferro. Até à construção da sua sucessora subterrânea, a fisionomia que aparece no postal permaneceu idêntica. Contudo, algumas árvores foram desaparecendo progressivamente...

Geografia íntima (9)

Amadora (193? 194?)
No postal aparece a antiga denominaçãoda Avenida Santos Matos - Avenida Amaral. O edifício do Recreios (à esquerda) permanece e recuperado como espaço requalificado, multiusos. Pertence agora à Câmara Municipal. Durante muito tempo este foi o cinema da terra. Um típico cinema de bairro, de reprise. Em frente, vê-se, contudo um, já desaparecido, que ostenta a designação cinema. Na verdade, o Recreios foi um espaço mais vocacionado para funções teatrais e de carácter social; só quando o outro, em frente, foi demolido, passou à condição de cinema. Na esquina está um edifício que ainda existe. Hoje, ao lado, está instalada a Segurança Social, em frente do mais genuíno café da Amadora, o Pigalle.

Geografia íntima (8)

Amadora (192? 1930?)
Eis a Avenida da República, no ponto mais central da Amadora (anos 20 ou 30?). Lembro-me bem da moradia que aparece no lado esquerdo e de uma outra, na esquina superior do lado direito da rua que sobe (Rua 1º de Dezembro). A "minha" Amadora, mais do que qualquer outra, é esta - vai da estação até à parte mais alta da Venteira, indo na direcção de Queluz. Foi nesta última zona que eu cresci.
Este centro formou-se por causa da estação. A estação, por sua vez, instalou-se neste lugar porque ficava a meio caminho de duas aldeias: a Porcalhota e a Venteira. Da mesma maneira que a estação de Queluz se instalou a meio caminho de Queluz (que era o Palácio e imediações) e Belas. Em ambos os casos, a estação acabou por se tornar o ponto de agregação e por definir o novo centro. Parece que o nome Amadora derivou de uma vivenda com esse nome, situada na Rua Elias Garcia. A CP adoptou o nome para a estação, já que Venteira-Porcalhota não era, propriiamente, bonito. Já no caso de Queluz, a designação da estação manteve-se como Queluz-Belas.

Geografia íntima (7)

Amadora (192? 193? 194?)
Tenho 47 anos e vivo na Amadora há 46. Gosto desta terra. Vi-a mudar muitíssimo, mas ainda gosto dela. Tornou-se de bom tom referir a Amadora como o paradigma do inferno suburbano. Discordo. Ou melhor, concordo se a afirmação incidir sobre a vasta periferia (Buraca, Damaia, Brandoa...). O centro, não sendo já o que foi, tem ainda, pelo menos, as seguintes vantagens: um ambiente agradável, espaços de socialização e convívio, dois amplos parques e muito comércio e serviços. Já pouco resta, porém, das muitas vivendas que o povoavam. A que aparece neste postal de 1916, a Casa Aprígio Gomes, situada, aliás, na zona onde vivo, definitivamente, sobreviveu e da melhor maneira, visto que foi recentemente restaurada e viu aí instalar-se o Centro Ciência Viva da Amadora (CCVA) . Ficou como uma espécie de testemunho da Amadora do passado - terra de bons ares, escolhida por gente bem (Mestre Roque Gameiro, Delfim Guimarães, Piteira Santos, por ex.) para acolher as sua moradias de verão.
No postal é visível, em primeiro plano, do lado esquerdo, uma casa térrea que ainda hoje existe, mas já abandonada. Aí foi a fábrica de rebuçados Dr. Bayard, de onde saía. alguma vezes, um cheiro adocicado. Ao fundo vê-se bem a casa da Tia Sofia, na Rua Elias Garcia, junto ao parque. Já não existe. Era uma conhecida casa de pasto e tinha um terreiro com parreira. Uma casa térrea ao lado, que não se vê no postal, essa sim, resiste. Nela está instalada uma agência funerária...

sexta-feira, outubro 01, 2004

Viagens (1): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (1)

Notas de férias: Imprensa
Na série Sopranos pude rever elementos do ambiente urbano do Norte de New Jersey, que conheci, aquando da minha estadia em Newark, em Agosto de 2000. Para lá de cenários que me ficaram de algum modo familiares, há a frequência com o que The Star-Ledger aparece no quotidiano dos personagens. É o grande jornal diário do Norte de New Jersey, editado em Newark, com mais de 400.000 exemplares de difusão diária. É estritamente local, com pelo menos 2/3 do seu material noticioso referente a esse âmbito. Do lado de cá do Rio Hudson, vê-se em todo o lado.
Já ia preparado para o gigantismo da edição dominical do New York Times (NYT), que pude comprovar (parece não hver limites razoáveis para o número de cadernos e encartes), mas o que eu ignorava é que a edição dominical de um, até então, para mim, desconhecido jornal dos subúrbios de Nova York, pudesse ser ainda maior, com os seus 2,5 Kg! Mais espantoso ainda é saber que essse mesmo jornal tem quase metade da difusão diária do celebrado NYT... quando esta se restringe geograficamente ao Norte de New Jersey. É apenas um dado para se perceber duas coisas no cenário da imprensa norte-americana: 1) O NYT é um jornal de elites; 2) A grande vitalidade da imprensa local.

American Dream (2)

DVD: Pack Sopranos - Série 1
É certo que a qualidade média do escpectáculoo televisivo tem vindo a degradar-se - é um fenómeno mundial... Contudo, verdadeiras preciosidades continuam a ser produzidas e exibidas - é questão de se estar atento... Sopranos - Série 1 nunca pude ver na TV, mas vi posterirmente em DVD. Ver desta forma tem, aliás, vantagens... Fiquei empolgado - é uma das coisas mais notáveis alguma vez feita em séries televisivas! São imensos os assuntos que sugere. Num blog de José Pacheco Pereira consta um artigo sobre a série: Traidora Tradução - A Nossa Mafia Caseira A RTP 2 está a emitir a Série 4. Tenciono ver todos os episódios de todas as séries em DVD.

quinta-feira, setembro 30, 2004

Dancing Days (4)

Peaches & Herb - The best of Peaches & Herb (1996)
É a melhor colectânea de Peaches & Herb (2ª fase). Integra a colecção Polydor Soul Series. A entrada faz-se com o dance hit Shake your groove thing (é preferível a versão para EP, que constitui o último tema). Continua com outro dance hit, Funtime. O destaque vai, contudo, como não podia deixar de ser, para a super balada Reunited.
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Dancing Days (3)

Peaches & Herb
Espectacular é o que se pode dizer desta balada de Peaches & Herb! Foi um dos singles mais vendidos de sempre. Este duo (nesta altura composto por Linda Green e Herbert Feemster, de Washington DC, pela mão do compositor e produtor Freddie Perren, tornou-se relevante no cenário disco sound de finais dos anos setenta. Nesse género, estritamente considerado, o seu maior êxito foi Shake your groove thing (13 semanas no Top40 USA, onde chegou a alcançar o 5º lugar, em 1979). Contudo, o seu maior êxito absoluto e um dos maiores de toda a história da música pop foi precisamente esta balada, que esteve 15 semanas no Top40 USA, alcançou o 1º lugar nesse mesmo ano de 1979. Mereceu, pois é a mais soberba balada romântica pop alguma vez feita! É curioso tal sucesso cavalgando a onda disco, já que esta era a segunda fase de uma carreira que tinha principiado em meados dos anos sessenta em plano de rythm & blues, com uma solista diferente, Francine Barker e um produtor também diferente, Van McCoy. Foi, enfim, uma reinvenção bem sucedida.

Dancing Days (2)

ABBA - The definitive collection
Reviver a música pop comercial dos anos 60, 70 e 80 é, cada vez mais, fonte de reencontrados prazeres. Neste intermitente reencontro, no topo das minhas preferências estão os ABBA (Agneta Fältskog, Björn Ulvæus, Benny Andersson e Anni-Frid Lyngstad). Agneta é a loira - a que se tornou um mito entre a homenzarrada planetária; Anni-Frid é a morena - que não deixou de ter a sua incondicional clientela libidinosa... Era uma música simples, desprestenciosa, alegre e, dentro destes parâmetros, muito bem feita. Tenho para mim, por exemplo, que Dancing queen é uma das mais bonitas canções de sempre. A melhor maneira de rever o mais universal produto sueco de tdos os tempos é esta colecção de videoclips editada em DVD.
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Dancing Days (1)

Em 1978 a Rede Globo lançou a novela Dancing Days, de Gilberto Braga, com enorme êxito. Assim se inaugurava a vocação especial deste autor para a novela urbana/classe média que se estende até agora, com Celebridade. Contudo, o que interessa aqui sublinhar é a tendência global em que esta novela se integra: os anos 70 e a música de discoteca. Tempos de crise económica mundial (choques petrolíferos...) e, ao mesmo tempo, de modas juvenis que se consolidavam como grande indústrias de consumo. A simplicidade da mensagem do Disco Sound traduzia a associação da felicidade com o efémero, exaltando a alienação tipo Satarday Night Fever.
Fica aqui, em jeito de estandarte, a letra do tema da novela, interpretado pelas Frenéticas:

Dancing Days
Abra suas asas,
Solte suas feras,
Caia na gandaia,
Entre nessa festa.
Me leve com você,
Seu sonho mais louco,
Eu quero ver seu corpo
Lindo, leve e solto.
A gente às vezes
Sente, sofre, dança
Sem querer dançar.
Na nossa festa vale tudo,
Vale ser alguém como eu,
como você.
Abra suas asas...
Dance bem, dance mal, dance sem parar,
Dance bem, dance até sem saber dançar.
Na nossa festa vale tudo,
Vale ser alguém como eu, como você.
Nelson Motta / Rubens Queiroz

quarta-feira, setembro 29, 2004

Boulevard Nostalgie (8)

Robert Doisneau - Foto
La voiture fondue (1944)

Boulevard Nostalgie (7)

Cartier-Bresson - Foto
Paris (1944)

Boulevard Nostalgie (6)

Cartier-Bresson - Foto
Henri Matisse em sua casa (1944)

Boulevard Nostalgie (5)

CD: Erik Satie / Pascal Roge - 3 Gymnopédies & other piano works (1984)
Paris, entre a Belle Époque e os Loucos Anos 20 evoca a figura de Erik Satie. Foi pianista de cabarets de Montmartre e compôs uma repertório erudito com um carácter algo naïf, entre o expressionismo e o surrealismo. Os desconcertantes nomes que deu a algumas peças atesta-o, ao mesmo tempo que reforça a sua irónica melancolia. A mais conhecida, Gymnopédie No.1, serve agora como fundo de um spot publicitário de choque sobre o desastre quotidiano nas estradas portuguesa. Um peça de tão encantadora languidez não é adequada para esse efeito...
Este CD é uma versão puramente pianistica. Há, com efeito, uma versão orquestral de Claude Debussy, amigo de Satie, mas esta é a original. De notar que a capa reproduz uma pintura de Joan Miró.
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Boulevard Nostalgie (4)

Paris - Postal (em torno de 1920)
L'Opéra

Boulevard Nostalgie (3)

Paris - Postal (em torno de 1920)
Place de la Concorde

Boulevard nostalgie (2)

Paris - Postal (em torno de 1920)
Gare du Nord

Boulevard nostalgie (1)

Paris - Postal (em torno de 1920)
Boulevard de Saint-Denis - Porte de Saint-Martin.
Esta é uma imagem de Paris, de um tempo em que era a capital artística e cultural do mundo. Anos dourados em que nela se acolhiam artistas e escritores de todo o mundo. As grandes avenidas parisienses evocam La Bohéme e cosmopolitismo. Em tom nostálgico, vem a propósito recordar a canção popularizada por Yves Montand:
Les Grands Boulevards
J'aime flâner sur les grands boulevards
Y a tant de choses, tant de choses
Tant de choses à voir
On n'a qu'à choisir au hasard
On s'fait des ampoules
A zigzaguer parmi la foule
J'aime les baraques et les bazars
Les étalages, les loteries
Et les camelots bavards
Qui vous débitent leurs bobards
Ça fait passer l'temps
Et l'on oublie son cafard
Je ne suis pas riche à million
Je suis tourneur chez Citroën
J'peux pas me payer des distractions
Tous les jours de la semaine
Aussi moi, j'ai mes petites manies
Qui me font plaisir et ne coûtent rien
Ainsi, dès le travail fini
Je file entre la porte Saint-Denis
Et le boulevard des Italiens
J'aime flâner sur les grands boulevards
Y a tant de choses, tant de choses
Tant de choses à voir
On y voit des grands jours d'espoir
Des jours de colère
Qui font sortir le populaire
Là vibre le cœur de Paris
Toujours ardent, parfois frondeur
Avec ses chants, ses cris
Et de jolis moments d'histoire
Sont écrits partout le long
De nos grands boulevards
J'aime flâner sur les grands boulevards
Les soirs d'été quand tout le monde
Aime bien se coucher tard
On a des chances d'apercevoir
Deux yeux angéliques
Que l'ont suit jusqu'à République
Puis je retrouve mon petit hôtel
Ma chambre où la fenêtre donne
Sur un coin de ciel
D'où me parviennent comme un appel
Toutes les rumeurs, toutes les lueurs
Du monde enchanteur
Des grands boulevards