domingo, outubro 28, 2007

Cuore matto (18)

click to comment
Ornella Vanoni - Ornella Vanoni (Hanno ammazzato il Mario (1961)
É o primeiro álbum de Ornella Vanoni, mas limita-se a ser uma compilação de singles previamente editados. Era o normal nessa época. O formato de longa duração ainda era encarado apenas com o verdadeiro significado do termo álbum: um repositório do que já havia sido feito. A carreira de Ornella tinha começado em meados dos anos 50 numa combinação de teatro e música, em ambiente intelectual. Com cerca de vinte anos integrava o elenco do Piccolo Teatro di Milano, sob a direcção de Giorgio Strehler. A jovem beldade ruiva, com um belo fio de voz e dotes interpretativos exercitados sobre temas de Berthold Brecht, tornou-se diva de uma espécie de sucursal transalpina da rive gauche...
Boa parte do repertório é composto por canções do espectáculo Canzoni della malavita, que glosa os meios da má vida milanesa. Veiculam uma visão romântica e social, com uma auréola de mistério propositadamente reforçada com insinuações de Giorgio Strehler sobre as supostas circunstâncias em que teriam sido encontrados os manuscritos onde constavam. Na verdade, tinham sido compostas por alguns dos mais destacados elementos do circulo desenvolvido em torno do Piccolo Teatro. Algumas têm a particularidade de ser cantadas em milanês. É o caso de
Sentii come la vosa la sirena, de Dario Fo. O idioma hoje em dia, está em forte recessão, mas nos anos 50 ainda era corrente nas ruas de Milão. É um dialecto do lombardo. Tem uma sonoridade suave, com vogais muito mais fechadas do que no italiano. De um modo simplista dir-se-ia estar situado a meio caminho do francês...
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Ornella Vanoni - Sentii come la vosa la sirena in Ornella Vanoni (Hanno ammazzato il Mario (1961)

quarta-feira, outubro 24, 2007

Viagens (18): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (8)


5º Dia (4ª Feira)(noite)

Tinha combinado encontrar-me no bar da FNAC de Milão com um participante do Forum na Internet sobre Mina. Era um dos participantes que menos se dava a conhecer, a ponto de não saber ao certo o fazia, nem a sua idade. No terceiro piso da FNAC, em pleno bar, não tive, contudo, dificuldade em o identificar num vulto de quarentão, com óculos muito graduados, que avançava na minha direcção. Para além dos naturais problemas idiomáticos, os problemas de comunicação foram acrescidos pela sua timidez. Imediatamente, de um saco a tiracolo retirou um magote de velhos singles de Mina, editados por esse mundo fora, nos idos de 60 e 70. Havia edições japonesas e até uma de Angola. Eram preciosidades para um coleccionador. Depois mostrou-me alguns CD’s promo (promoções para rádio) e entendi que os estava a oferecer-mos. Só perante o seu ar aflito me apercebi que, afinal, não era isso - estava a propor que eu os comprasse. Rejeitei atarantadamente a proposta. Senti-me sem jeito e ficou no ar uma pesada sensação de gaffe... Tanto que, quando o convidei para jantar, esperava que não aceitasse. Mas não só aceitou, como, simpaticamente, se prestou a desempenhar papel de guia. Mostrou com entusiasmo os vestígios romanos de Mediolanum ali bem perto e forneceu informações que nenhum guia de papel pode dar. Mas era, definitivamente, uma pessoa estranha, tão afastada quanto se possa imaginar do estereotipo italiano. Verifiquei que, numa cidade em que, normalmente, se é furiosamente nerazzurro (Inter) ou rossonero (AC Milan), tinha perante mim um exemplar neutro… que odiava futebol. O seu passatempo preferido era, disse enfaticamente, deambular solitário pelas montanhas... Conduziu-me a um restaurante, onde se comeu bem e a preço razoável. No final, queria pagar a sua parte da conta..! Não consegui deixar de me espantar com tal alarde de mesquinhez, que resolutamente rejeitei. Fosse como fosse, apesar das situações constrangedoras, houve uma agradável e interessante troca de impressões, que, entre outras coisas, me permitiu concluir que o salário de um professor italiano é em termos absolutos inferior ao nosso e em termos relativos ainda mais baixo. Era anti-berlusconiano e também não gostava de Umberto Bossi, líder da Lega Nord. A propósito perguntei-lhe se ainda se falava dialecto milanês, ao que me respondeu que nas cidades já não, mas que nos campos ainda era falado por idosos. Lembrava-se que na sua juventude ainda era corrente escutá-lo pelas ruas de Milão. Adorava a sua cidade, a qual, dizia, não trocava por nenhuma outra. De Portugal não sabia nada, nem os superficiais lugares-comuns. Parecia não ter interesse nenhum em conhecer Portugal ou Espanha. O único grande interesse que tinha por terras estrangeiras era por Paris. A minha afinidade com ele limitava-se a gostos musicais, desde Mina a Nino Ferrer. Despediu-se inopinadamente em pleno Duomo e, depois de tudo, acabei por não estranhar o modo desconcertante como desapareceu.
O Duomo é sensacional, pela fachada da catedral, pela amplitude da praça, pela Galleria Vittorio Emanuelle. Esta é composta por um cobertura sobre duas ruas e uma ampla abóbada no seu cruzamento. A estrutura é de vidro e ferro e os edifícios têm a traça da melhor arquitectura da segunda metade do século XIX. Aí, o comércio é do mais refinado. A livraria Feltrinelli, por exemplo, é majestosa. Aqui, como em Espanha, traduz-se tudo e a oferta abrange uma variedade por cá inimaginável. Regressei ao hotel atormentado pelo calor. Na ida e na vinda utilizei o metro, que cobre quase toda a cidade. Como o de Madrid, Barcelona ou Nova Iorque é mais feio que o de Lisboa, mas mais funcional.

sábado, outubro 13, 2007

Cuore matto (17)

click to comment
Mina - Cinquemilaquarantatre (1972)
Este é um dos mais famosos álbuns de Mina. Deve tal fama ao título e capa e, sobretudo, à canção Parole parole. O título corresponde tão-só ao número de série de registo de edição discográfica (5.043). A capa, em estilo pop art, foi insolitamente, editada em três ou quatro variantes de cores. Mas o mais importante é, evidentemente, Parole parole - um original dueto entre Mina e Alberto Lupo. Este corteja-a com palavras (parole) insinuantes e a destinatária desdenha tais palavras e desacredita o esforçado galanteador. A coisa é não só original, como, musicalmente resulta em pleno. Pois fique-se sabendo que resultou de um artifício para pano de fundo do genérico final de um show televisivo da RAI... Registe-se ainda o nome dos três inspirados compositores: Leo Chiosso, Giancarlo Del Re e Gianni Ferrio. A canção, no seu tempo, teve impacto, mesmo além das fronteiras transalpinas. Mas, o maior impacto correu por conta da versão francesa interpretada pelo dueto Dalida / Alain Delon. Sem desprimor para esta última versão (também magnífica!), a original é melhor, não só porque cantada em italiano, como pela suprema capacidade interpretativa de Alberto Lupo e Mina. Parole parole é o último tema do álbum, que abre como uma bonita canção Fiume Azzurro e atravessando um conjunto de temas de valor mediano desagua assim nesta obra-prima.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Mina - Parole, parole in Cinquemilaquarantatre (1972)

sexta-feira, outubro 12, 2007

Cuore matto (16)

click to comment
Mina - Mina (E penso a te) (1971)
Entre mais de meia centena de álbuns de originais de Mina (com as compilações ultrapassar-se-á a centena...), este álbum estará muito longe de se poder incluir entre os melhores. Contudo, contém Grande, grande, grande - a canção interpretada por Mina que sempre foi mais divulgada, pelo menos, fora de Itália. Resulta irónico que essa divulgação corresse mais a cargo da versão inglesa de Shirley Bassey, já que nada, absolutamente nada (nem a excelente voz da galesa) pode arrogar-se a condição de sucedâneo de tão acabada versão como é esta, a original! O belíssimo tema foi composto por uma das glórias do Festival de San Remo, Tony Renis e foi orquestrado por aquele que permanece até hoje como um dos maestros mais carismáticos da carreira de Mina, Pino Presti. Há uma outra canção que merece destaque: Amor Mio, de uma dupla fulcral de compositores da canção italiana: Mogol / Lucio Battisti.
Uma nota final sobre a insólita capa: Parece que a diva, num determinado dia da fase inicial da sua gravidez, desgostosa perante a aparência da sua face no espelho, decidiu num arroubo de radical ironia, que a capa do disco que estava em preparação haveria de ostentar um símio...
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Mina - Grande, grande, grande in Mina (E penso a te) (1971)

Cuore matto (15)

click to comment
Mina - Frutta e verdura (1973)
Entre fans e críticos tormou-se desde há muito consensual situar este disco como um dos melhores de Mina. De facto, o valor médio é muito elevado, embora nenhum tema tivesse ascendido à condição de emblemático ou popular, com a parcial excepção de E poi... Contudo, junto com este, deve-se destacar Devo tornare a casa (os dilemas de uma mulher em ruptura com o seu casamento), Domenica sera e Tentiamo ancora. De notar ainda que há uma versão italiana de Águas de Março, de Tom Jobim (La pioggia di marzo). Graças à voz ímpar da cantora, à natureza das letras e das músicas, assim como aos arranjos de Pino Presti, impera uma quente sensualidade que marca a identidade deste álbum.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Mina - Tentiamo ancora in Frutta e verdura (1973)

quinta-feira, outubro 11, 2007

Cuore matto (14)

click to comment
Mina - La Mina (1975)
Mina tem percorrido, desde 1958 até aos dias de hoje, uma carreira extensa e multifacetada, marcada pela sua intrínseca italianidade... Versatilidade, ecletismo e elegância podem aqui ajudar a definir tal atributo, não esquecendo esse ponto de mistério que acompanha o seu desaparecimento como entidade pública visível desde finais dos anos 70. Precisamente, dessa década datam alguns dos seus melhores álbuns. Este é um deles. Sem um tema desinteressante e configurando de início a fim um ambiente cálido e insinuante. Temas a destacar: Signora più che mai, Immagina un concerto, Tu no e, acima de todos, L'importante è finire - uma das suas mais famosas canções e... justificadamente. Tem uma densa atmosfera sensual, que se deve aos arranjos de Pino Presti e à voz de Mina, aqui mais insinuante e expressiva do que nunca... Definitivamente, foi nos anos 70 que la tigre di Cremona atingiu o apogeu como cançonetista, sendo certo, porém, que não tinha ainda revelado outras faculdades (ver-se-ia a partir de finais de 70 que a sua versatilidade não conheceria limites...).
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10


Mina - L'importante è finire in La Mina (1975)

sexta-feira, outubro 05, 2007

Cuore matto (13)

click to commentclick to comment
Mina - Italiana (1982)
Italiana foi originalmente editado como duplo LP, identificado cada um como Italiana Vol. 1 e Italiana Vol. 2. As sucessivas reedições em CD mantiveram o conceito. Contudo, há continuidade entre os dois volumes. Partilham a mesma sonoridade. Há variedade, mas indistintamente repartida por ambos. É um ponto de encontro de várias tendências do seu repertório, predominando uma sonoridade pop standard. A cuidada produção dá consistência ao projecto. É consensual entre os “minófilos” tratar-se de uma trabalho importante, embora sugerindo rumos duvidosos para os mais afeiçoados ao cançonetismo tradicional. Mina está aqui rodeada pela sua habitual equipa desta época, liderada por Vittorio Buffoli. A importância do seu filho Massimiliano Pani é já evidente e aparece Celso Valli como responsável de arranjos de alguns temas. Note-se que predominam originais de compositores italianos, o que não impede que existam três temas cantados em inglês.
No Vol 1, Magica follia abre da melhor forma. É um tema quente, bem à medida da cantora. Deve-se destacar ainda Per averti qui, Già visto e Sapori de civiltà. Há ainda a versão de um velho tema de Chico Buarque – Que Serà (O que será?).
O Vol 2 inicia-se com o melodioso Mi piace tanto la gente e acaba em força com Oggi è nero – peça de construção elaborada. Pelo meio, temos Sweet Transvestite - uma espécie de hino para drag queens, cuja insólita sonoridade é sublinhada por um registo andrógeno, demonstrativo da variada gama de virtuosismos da sua voz - e It’s your move, que é do mais elementar e puro disco.
Italiana
consagra uma nova fase na trajectória de Mina, iniciada em 1979 – definitivamente na vanguarda da canção italiana num ponto de cruzamento de influências diversas. Por fim, note-se que as capas são das mais conseguidas dentro da feição vanguardista característica de Mauro Baletti - aparece uma sugestiva Mina de feições clownescas, em fundo de azul veludo.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10


Mina - Sapori di civiltà in Italiana Vol 1 (1982)