terça-feira, outubro 19, 2004

Geografia íntima (17)

GNR - Rock in Rio Douro (1992)
Este álbum dos GNR tem dois temas especiais: Sangue Oculto e Pronúncia do Norte. Neles, a voz semi-falsete de Rui Reininho contracena, respectivamente, com Javier Andreu (vocalista do grupo espanhol La Frontera) e com a essa vibrante mulher do Norte que é Isabel Silvestre. De resto, todos os outros temas são vulgares, revelando que cá, como em todo o lado, as fórmulas do pop/rock se foram esgotando a partir de finais dos 80... Mas esses dois temas são, de facto, especiais. O primeiro tem força genuína, sendo, além disso, um original diálogo em castelhano e português. O segundo, descontados muitos exemplos vindos da Galiza, é o "hino" mais apropriado que conheço para aquele mundo de brumas e granito que é o Norte. Em dueto com Reininho, a voz de Isabel Silvestre parece esvair-se num fio etéreo, mas há uma superior expressão emotiva nesse fio que impregna toda a canção, dominando-a. Além de que o tema assenta no enunciado da pronúncia do Norte como expressão de carácter - essa pronúncia que se recusa a emudecer as vogais e que transporta a expressão em sonoridade. O português que vem do mais fundo dos tempos...
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Geografia íntima (16)

Porto (1912)
Nos anos 60 ainda se captavam com facilidade imagens idênticas à da foto. Pelas vielas abarrotadas de vida, extravasando misérias e alegrias, havia canalha por todo o lado. A meio caminho entre o tempo da foto e esse tempo que conheci há um inesquecível filme que dá fé dessa realidade: Aniki- Bóbó...

Geografia íntima (15)

Porto (1912)
É o Barredo, mas podiam ser os Guindais ou a Bainharia - Alma granítica atravessando o tempo...

Geografia íntima (14)

Porto (1912)
É conhecido o tópico do "homem do Norte", mas, ainda mais justo seria o tópico da "mulher do Norte"... de porte altivo, carácter autoritário, rija têmpera e vernácula expressividade que evocam um mítico matriarcado céltico...
Esta foto foi tirada no Mercado do Anjo, desaparecido há muito. Estava situado no que hoje é a Praça de Lisboa, no lado oeste dos Clérigos.
Apesar da foto se reportar a um tempo que é o dos meus avós, conheço muito bem aqueles xailes de lã, aquelas longas saias rodadas, aquelas fisionomias...

Geografia íntima (13)

Porto (1912)
Esta Ribeira, pejada de carros de bois, não a conheci. Em todo o caso a minha Ribeira estava mais perto desta do que da actual. Não havia bares e restaurantes. Havia lojas onde se vendia bacalhau e polvo seco, com aquele característico cheiro salgado. Havia mercearias e casas de pasto. De manhã os gritos das vendedeiras dominavam o ambiente. Em muitas tardes de Verão a canalha de pé descalço atirava-se em mergulho para o rio.

Geografia íntima (12)

Porto (1912)
Ontem como hoje a face do Porto é a mesma: autenticidade, seriedade, solidez.
A meio caminho entre os Clérigos e a Ribeira, a igreja onde fui baptizado: A igreja da Vitória.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Dancing Days (7)

CD: Barry White - Barry White's Greatest Hits (1975)
Trata-se da reedição em CD de um LP antológico de 1975, o qual, portanto, concentra todos os grandes êxitos do tempo auge de Barry White, excluíndo, contudo, os que foram protagonizados pela sua Love Unlimited Orchestra.
Abre com os dois mais poderosos temas: What am I gonna Do with You (para mim, um hino intemporal...) e You're the first, the last, my everything. Pena é que, apesar da capa envergar uma estética concordante, o encarte seja pobre.
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Dancing Days (6)

Barry White (1945-2003)
A voz quente de Barry White, as suas composições e orquestrações foram um dos elementos mais identificadores do auge Disco Sound em meados dos anos 70. A um nível idêntico apenas chegaram os Bee Gees ou os KC & Sunshine Band. A junção de uma batida fortemente ritmada com um grandioso fundo orquestral, onde as cordas estavam em relevo, foi a receita que lhe trouxe êxitos sobre êxitos. Teve 4 temas no Top5 USA: Love's Theme (#1 - 1973)(com a sua Love Unlimited Orchestra); I'm gonna love You just a little more baby (#3 - 1973); Can't get enough of your love, baby (#1 - 1974); You're the first, the last, my everything (#2 - 1974). Todos estes temas são espectaculares e marcaram justamente uma era. Não por acaso, a título de exemplo, o último destes temas era o da promoção do canal SIC Gold. Incrível como uma fisionomia tão disforme (correspondente a muito mais de 100 Kg...) deu alma e forma a uma música popular, de amor e jovialidade. Barry White morreu há pouco tempo, mas ficará sempre como um dos ícomes dos anos 70.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Dancing Days (5)

CD: Grace Jones - Slave to the Rhythm (1985)
A jamaicana parisiense Grace Jones foi sempre em todos os domínios sinónimo de produção sofisticada. Os domínios foram ecléticos: moda, música e cinema... pelo menos. O seu corpo longuilínio e a sua face dura inspiraram experiências de produção imaginativas, normalmente em tons andrógenos. Na música, sempre sob orientação de produtores exímios, evoluiu desde o disco sound (onde irrompeu com uma espantosa versão hiper-inconoclasta de La Vie en Rose) até ao prenúncio das novas tendências da dance music. Esta gravação representa esse último ponto. Mais do que nunca, o verdadeiro protagonismo vai para o produtor, neste caso Trevor Horn e mais do que nunca Grace Jones é uma imagem, um pretexto... sugestivo e eficaz.
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segunda-feira, outubro 11, 2004

Boulevard Nostalgie (14)

Aimer à perdre la raison

Ah, c'est toujours toi que l'on blesse
C'est toujours ton miroir brisé,
Mon pauvre bonheur ma faiblesse
Toi qu'on insulte et qu'on délaisse
Dans toute chair martyrisée.

Aimer à perdre la raison
Aimer à n'en savoir que dire
À n'avoir que toi d'horizon
Et ne connaître de saisons
Que par la douleur de partir
Aimer à perdre la raison.

La faim la fatigue et le froid,
Toutes les misères du monde,
C'est par mon amour que j'y crois
En elles je porte ma croix
Et de leurs nuits ma nuit se fonde
Louis Aragon

Boulevard Nostalgie (13)

CD- Jean Ferrat - Ferrat chante Aragon (1971)
Este LP de Jean Ferrat é um perfeito exemplo de como a canção francesa é inexcedível na arte de adaptar poemas. Neste caso, Jean Ferrat faz um trabalho sublime com alguns dos mais conhecidos poemas de Louis Aragon. O lirismo das palavras é totalmente correspondido pela composição, arranjos e voz. Um particular estado de graça parece ter passado por aqui...
De notar que esta versão em CD corresponde à original, que é preferível a uma versão posterior, com arranjos diferentes.
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sábado, outubro 09, 2004

Argel - Cairo - Beirute (1)

Om Kalsoum (Umm Kulthum) (1904-1975)

Esta cantora egípcia (o seu nome pode aparecer em caracteres latinos de diferentes formas) é a maior figura da música árabe. O seu apogeu, nos anos 40 e 50, corresponde a uma era de expansão do cinema dos estúdios do Cairo, cuja expansão abrangia directamente todo o vasto mundo de língua árabe e indirectamente áreas linguístico-culturais limítrofes (turca, persa, paquistanesa...). Esse cinema era de conteúdo romântico e tinha quase sempre uma feição musical. Foi aí que Om Kalsoum se começou a afirmar como intérprete de referência. Viviam-se tempos de ideais pan-arabistas. O Cairo era então não só a capital cultural do mundo árabe, como o foco difusor desses ideais, que tinham encontrado em Nasser o seu paladino. Mas enquanto os desafios políticos nasserianos mobilizavam a opinião pública, os cinemas enchiam-se, levando aos corações mensagens de amor e desamor. Assim, Om Kalsoum chegou a ser ainda mais popular que o próprio líder e realizou de modo mais efectivo uma certa forma de pan-arabismo...
A sua extrema popularidade não foi, contudo, suficiente para passar as fronteiras ocidentais. Sucede que a canção árabe pouco tem de semelhante com a estrutura da canção popular ocidental. Basta dizer que o padrão standard de 3 minutos corresponderá a uma parte da introdução de uma canção normal de Om Kalsoum. O complexo desenvolvimento melódico e a aspereza da língua árabe dificultam ainda mais o acolhimento ocidental. É, evidentemente, uma questão de códigos culturais, mas é estimulante exercitar a nossa sensibilidade para romper essas barreiras. Ao longo de um tempo, que pode ir de 5 a 50 minutos, cada canção conta uma história sentimental de uma forma lenta, que joga com distintos cenários instrumentais e com um clímax de expressividade que as suas capacidades interpretativas conseguem ir graduando de forma precisa. Claro está, que o tempo destas canções não foi condicionado pelas necessidades da indústria discográfica - o formato EP e até LP não eram adequados - frequentemente, um LP acolhia uma única canção e a operação de virar o disco interrompia o natural desenvolvimento da sua audição. O tempo é aquele que advem de formas tradicionais, aqui e ali adaptadas às necessidades do cinema. Onde se capta melhor a valia expressiva desta música é em gravações ao vivo. Aquela que é a mais conhecida das suas gravações, Al-Atlaal, demonstra uma participação intensa do público, o qual não se coíbe de sublinhar o dramatismo da narrativa com arrebatados aplausos e interjeições. Os sofridos gemidos da "diva do Nilo" são, assim, amplificados pela plateia.
Página Web

Musseque (1)

Papa Wemba - Papa Wemba (N' fono yami)(1988)
A matéria musical aqui presente é o Sokous - género pop oriundo do Congo (Zaire). É o melhor álbum de música africana que conheço. Sem a rusticidade das produções feitas em África e sem o artificioso de algumas produções feitas na Europa. Diria que está no perfeito meio termo. Mas, acima de tudo há dois elementos essenciais: a poderosa cadência rítmica que sugere aquela África verdadeiramente selvagem e a voz vibrante de Papa Wemba, a qual reitera esse carácter, no melhor sentido que pode ter... Deve-se dar particular atenção ao tema Esclave, que é das coisas mais emocionantes que a música africana já alguma vez deu.
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segunda-feira, outubro 04, 2004

Boulevard Nostalgie (12)

CD: Salvatore Adamo - Adamo Vol 2 (La Nuit) (1965)
Antes de mais, este CD faz parte de uma colecção da editora francesa Magic Records que é um exemplo magnífico de como se pode reeditar velhos LP's de uma forma que é um exercício de reconstituição, pois existe o cuidado de recuperar o design original, que chega, inclusive, ao pormenor de dar à etiqueta do suporte a aparência do vinil. É, portanto, um produto adequado para coleccionadores ou simples nostálgicos. Diga-se, desde já, que este não é um dos melhores LP's de Adamo, contudo, apresenta uma particularidade: tem um tema cantado em italiano, Dolce Paola, que nunca teve versão noutro idioma. É um tema muito bonito que constitui uma dedicatória à princesa italiana do mesmo nome que tinha acabado de se casar com o herdeiro do trono belga. Note-se que os grandes êxitos de Adamo foram sempre originalmente cantados em francês, mas todos tiveram versões suas cantadas em italiano e espanhol. Algumas foram cantadas também em línguas tão insólitas como o japonês. Esta colecção da Magic Records apresenta algumas dessas versões comuns e exóticas como bonus tracks.
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Boulevard Nostalgie (11)

Salvatore Adamo
Adamo nasceu na Sicilia, mas, ainda na primeira infância, os seus pais emigraram para uma cidade industrial da Valónia, Bélgica. Nos anos 60 tornou-se um dos maiores nomes da música popular francófona, com grande projecção mundial. Foi um ídolo - o maior que a Bélgica jamais alguma vez teve, com a licença de Jacques Brel, que, enfim, teve um registo artístico diferente (curiosamente outro ídolo belga seu contemporâneo foi Rocco Granata, também italo-descendente) A voz melancólica ajustava perfeitamente com um ar angelical, sendo esta a base de uma pose romântica que consituiu o seu sucesso. Contudo, nesses tempos, estes fenómenos de popularidade não implicavam necessariamente má qualidade musical. Foi sempre um excelente cantor, servido por magníficas composições.

Boulevard Nostalgie (10)

Les Cornichons
Eis a prosaica letrinha de Les Cornichons (provavelmente com algum duplo sentido...) - canção que tem tanto de simples como de brilhante. Curiosamente parece que a versão original é norte-americana, mas, dessa, pouco transcendeu...
On est parti, samedi, dans une grosse voiture,
Faire tous ensemble un grand pique-nique dans la nature,
En emportant des paniers, des bouteilles, des paquets,
Et la radio !
Des cornichons
De la moutarde
Du pain, du beurre
Des p'tits oignons
Des confitures
Et des oeufs durs
Des cornichons
Du corned-beef
Et des biscottes
Des macarons
Un tire-bouchons
Des petits-beurre
Et de la bière
Des cornichons
On n'avait rien oublié, c'est maman qui a tout fait
Elle avait travaillé trois jours sans s'arrêter
Pour préparer les paniers, les bouteilles, les paquets
Et la radio !
Le poulet froid
La mayonnaise
Le chocolat
Les champignons
Les ouvre-boîtes
Et les tomates
Les cornichons
Mais quand on est arrivé, on a trouvé la pluie
C'qu'on avait oublié, c'était les parapluies
On a ramené les paniers, les bouteilles, les paquets
Et la radio !
On est rentré
Manger à la maison
Le fromage et les boîtes
Les confitures et les cornichons
La moutarde et le beurre
La mayonnaise et les cornichons
Le poulet, les biscottes
Les oeufs durs et puis les cornichons

Audio Sampler Amazon.fr (track 5 disco 1)

Boulevard Nostalgie (9)

Nino Ferrer - Nino Ferrer (2001)

Nino Ferrer nasceu em Génova, Itália, mas fez o mais importante da sua carreira artística em França, apesar de não ter deixado de sustentar uma carreira italiana, em paralelo. Nos anos 60 obteve grande sucesso com temas como Les cornichons, Agata e Mirza. Estava plenamente inserido na onda pop desses tempos. Contudo, desde o início tornou-se patente a sua versatilidade, quer pelo carácter jazzy que imprimia a muitas das suas composições, quer pela sua vocalização soul, quer ainda pelo seu talento em compor baladas melódicas. Com efeito, foi o autor do tema C'ést irréparable, que sairia do anonimato como Un anno d'amore, versão italiana popularizada por Mina e, posteriormente, ainda mais popularizado por Luz Casal na versão espanhola, Un ano de amor. Dando plena expressão a essa versatilidade, a partir dos anos 70 procurou caminhos musicais vanguardistas e explorou também outras áreas artísticas, com destaque para a pintura. Espírito atormentado, acabou por se suicidar, deixando grata memória entre os seus requintados fans.
Esta colectânea ilustra o conjunto da trajectória da sua carreira francesa. Não é um simples CD, já que este está integrado num pequeno livro com abundante documentação sobre o artista e excelente grafismo.


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Web: Página Oficial

domingo, outubro 03, 2004

Noites tropicais (5)

Roberto Carlos - Detalhes (1971)
Para mim, Roberto Carlos é mesmo O Rei... da MPB (Música Popular Brasileira). É incompreensível que quando se apresente a MPB não se saliente, desde logo, este facto. Não se entende que a sua carreira, por ter assentado numa trajectória de êxito comercial, seja menosprezada. É um profissional exemplar, além de que as suas qualidades interpretativas jamais recorreram ao artificial e o seu posicionamento musical, durante os primeiros 10 anos da sua carreira, esteve na vanguarda ou próximo.
Este CD é a reedição de um LP que, não sendo o melhor da sua imensa discografia, tem o privilégio de abrir com Detalhes - para mim, uma das mais belas canções de sempre! É a "jóia da coroa" da profícua dupla Roberto Carlos/Erasmo Carlos. O tom íntimo da interpretação, a bela simplicidade da melodia, a melancólica amargura da letra, fazem um conjunto ímpar.
Há um outro tema que merece destaque, é o último: Amada Amante - uma proclamação amorosa, em toada reiterativa, com uma sonoridade própria daquela época (com protagonismo no órgão Hammond), que me recorda a rádio e os bailes populares daqueles tempos...
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Noites tropicais (4)

Walter Wanderley - Rain Forest (1966)
A colecção Verve by Request tem reeditado luxuosamente em CD (reproduzindo, em encarte, o grafismo original) os LP's produzidos por Creed Taylor nos anos 60. Este foi o responsável pelo salto qualitativo da Bossa Nova ao produzir as extraordinárias experiências de fusão com João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz. A ele se deve também a produção de Walter Wanderley . Este, pernambucano de origem, era um organista e pianista de night clubs de São Paulo e foi dos primeiros a entrar na onda da Bossa Nova, mediante a sonoridade, então moderníssima, do órgão Hammond. Gravou com Astrud Gilberto, mas depois iniciou uma carreira exclusivamente instrumental. Este é o seu primeiro LP dessa fase. O sucesso foi enorme, por causa de Summer Samba, de Marcos Valle, o qual atingiu o Top40. Como as notas deste órgão electrónico soam tão quentes! Wanderley ficou para sempre nos EUA, instalando-se na California, onde viria, aliás, a falecer em meados dos anos 80.
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sábado, outubro 02, 2004

Geografia íntima (11)

Amadora (193? 194?)
Esta panorâmica aérea incide na parte Leste do Centro. Em primeiro plano, junto à linha de caminho-de-ferro, está a fábrica de cintas e espartilhos Santos Matos. Lembro-me bem desse edifício, contudo tinha deixado as suas funções fabris muitos anos antes de eu o conhecer. Vislumbra-se, no centro do postal, o edifício (branco) onde hoje está instalada a Agência Natália. São muito poucos outros exemplos de casas sobreviventes, mas são numerosos aquelas de que guardo memória. Note-se que os terrenos que hoje pertencem à Academia Militar, na parte superior do postal, correspondiam ainda nesta altura (anos 30, 40?) ao aeródromo que notabilizou a Amadora na primeira metade do século XX..

Geografia íntima (10)

Amadora (193? 194? 195?)
Foi esta a origem da moderna Amadora e causa seu do desenvolvimento: a estação de caminhos-de-ferro. Até à construção da sua sucessora subterrânea, a fisionomia que aparece no postal permaneceu idêntica. Contudo, algumas árvores foram desaparecendo progressivamente...

Geografia íntima (9)

Amadora (193? 194?)
No postal aparece a antiga denominaçãoda Avenida Santos Matos - Avenida Amaral. O edifício do Recreios (à esquerda) permanece e recuperado como espaço requalificado, multiusos. Pertence agora à Câmara Municipal. Durante muito tempo este foi o cinema da terra. Um típico cinema de bairro, de reprise. Em frente, vê-se, contudo um, já desaparecido, que ostenta a designação cinema. Na verdade, o Recreios foi um espaço mais vocacionado para funções teatrais e de carácter social; só quando o outro, em frente, foi demolido, passou à condição de cinema. Na esquina está um edifício que ainda existe. Hoje, ao lado, está instalada a Segurança Social, em frente do mais genuíno café da Amadora, o Pigalle.

Geografia íntima (8)

Amadora (192? 1930?)
Eis a Avenida da República, no ponto mais central da Amadora (anos 20 ou 30?). Lembro-me bem da moradia que aparece no lado esquerdo e de uma outra, na esquina superior do lado direito da rua que sobe (Rua 1º de Dezembro). A "minha" Amadora, mais do que qualquer outra, é esta - vai da estação até à parte mais alta da Venteira, indo na direcção de Queluz. Foi nesta última zona que eu cresci.
Este centro formou-se por causa da estação. A estação, por sua vez, instalou-se neste lugar porque ficava a meio caminho de duas aldeias: a Porcalhota e a Venteira. Da mesma maneira que a estação de Queluz se instalou a meio caminho de Queluz (que era o Palácio e imediações) e Belas. Em ambos os casos, a estação acabou por se tornar o ponto de agregação e por definir o novo centro. Parece que o nome Amadora derivou de uma vivenda com esse nome, situada na Rua Elias Garcia. A CP adoptou o nome para a estação, já que Venteira-Porcalhota não era, propriiamente, bonito. Já no caso de Queluz, a designação da estação manteve-se como Queluz-Belas.

Geografia íntima (7)

Amadora (192? 193? 194?)
Tenho 47 anos e vivo na Amadora há 46. Gosto desta terra. Vi-a mudar muitíssimo, mas ainda gosto dela. Tornou-se de bom tom referir a Amadora como o paradigma do inferno suburbano. Discordo. Ou melhor, concordo se a afirmação incidir sobre a vasta periferia (Buraca, Damaia, Brandoa...). O centro, não sendo já o que foi, tem ainda, pelo menos, as seguintes vantagens: um ambiente agradável, espaços de socialização e convívio, dois amplos parques e muito comércio e serviços. Já pouco resta, porém, das muitas vivendas que o povoavam. A que aparece neste postal de 1916, a Casa Aprígio Gomes, situada, aliás, na zona onde vivo, definitivamente, sobreviveu e da melhor maneira, visto que foi recentemente restaurada e viu aí instalar-se o Centro Ciência Viva da Amadora (CCVA) . Ficou como uma espécie de testemunho da Amadora do passado - terra de bons ares, escolhida por gente bem (Mestre Roque Gameiro, Delfim Guimarães, Piteira Santos, por ex.) para acolher as sua moradias de verão.
No postal é visível, em primeiro plano, do lado esquerdo, uma casa térrea que ainda hoje existe, mas já abandonada. Aí foi a fábrica de rebuçados Dr. Bayard, de onde saía. alguma vezes, um cheiro adocicado. Ao fundo vê-se bem a casa da Tia Sofia, na Rua Elias Garcia, junto ao parque. Já não existe. Era uma conhecida casa de pasto e tinha um terreiro com parreira. Uma casa térrea ao lado, que não se vê no postal, essa sim, resiste. Nela está instalada uma agência funerária...

sexta-feira, outubro 01, 2004

Viagens (1): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (1)

Notas de férias: Imprensa
Na série Sopranos pude rever elementos do ambiente urbano do Norte de New Jersey, que conheci, aquando da minha estadia em Newark, em Agosto de 2000. Para lá de cenários que me ficaram de algum modo familiares, há a frequência com o que The Star-Ledger aparece no quotidiano dos personagens. É o grande jornal diário do Norte de New Jersey, editado em Newark, com mais de 400.000 exemplares de difusão diária. É estritamente local, com pelo menos 2/3 do seu material noticioso referente a esse âmbito. Do lado de cá do Rio Hudson, vê-se em todo o lado.
Já ia preparado para o gigantismo da edição dominical do New York Times (NYT), que pude comprovar (parece não hver limites razoáveis para o número de cadernos e encartes), mas o que eu ignorava é que a edição dominical de um, até então, para mim, desconhecido jornal dos subúrbios de Nova York, pudesse ser ainda maior, com os seus 2,5 Kg! Mais espantoso ainda é saber que essse mesmo jornal tem quase metade da difusão diária do celebrado NYT... quando esta se restringe geograficamente ao Norte de New Jersey. É apenas um dado para se perceber duas coisas no cenário da imprensa norte-americana: 1) O NYT é um jornal de elites; 2) A grande vitalidade da imprensa local.

American Dream (2)

DVD: Pack Sopranos - Série 1
É certo que a qualidade média do escpectáculoo televisivo tem vindo a degradar-se - é um fenómeno mundial... Contudo, verdadeiras preciosidades continuam a ser produzidas e exibidas - é questão de se estar atento... Sopranos - Série 1 nunca pude ver na TV, mas vi posterirmente em DVD. Ver desta forma tem, aliás, vantagens... Fiquei empolgado - é uma das coisas mais notáveis alguma vez feita em séries televisivas! São imensos os assuntos que sugere. Num blog de José Pacheco Pereira consta um artigo sobre a série: Traidora Tradução - A Nossa Mafia Caseira A RTP 2 está a emitir a Série 4. Tenciono ver todos os episódios de todas as séries em DVD.