domingo, janeiro 22, 2006

Tiro ao Alvo (6)


Cavaco Silva ganhou!
...E por goleada, já que foi à primeira volta! À primeira! A grande virtude deste homem é que é uma pessoa honesta, sensata e equilibrada - alheio a ideologias programáticas. Vade retro toda a esquerda facciosa que nos conduziu a este triste estado e que agora ressurgiu, alardeando precisamente alguns dos seus mais notórios defeitos. Que nos conduziu, pois foi a esquerda que moldou o regime que temos e balizou as suas regras. A sua cosmovisão tornou-se tão influente na nossa sociedade que nunca deixou de afectar, por exemplo, a política levada a cabo, inclusivamente, pelos governos do PSD, incluindo os liderados por Cavaco Silva. É um óptimo sinal ver, pela primeira vez após o 25 de Abril, a esquerda arredada desse lugar simbólico que é a Presidência da República.
Mas se se evitou o pior, não quer dizer, evidentemente, que esta vitória tenha efeitos miraculosos. Nem sequer, como se sabe, a Presidência é um lugar com meios e condições para uma intervenção política ao nível decisivo que os nossos problemas exigem. Além de que Cavaco Silva, pese as suas qualidades, não pode ser o homem providencial. Em todo o caso, estou feliz... por Portugal!

Vintage (5)


Alfred Hitchcock - Janela Indiscreta (Rear Window) (1954)
É consensual: toda a gente adora este filme. É uma obra-prima do cinema. Desde os intelectuais ao público avulso não há quem pense o contrário. Hitchcock pertence àquela classe de realizadores (a maioria deles fazem parte do cinema clássico americano) que conseguem consensos.
Já muito se escreveu sobre A Janela Indiscreta e eu agora, depois de rever o filme, não me sinto propenso a reafirmar todos os muitos aspectos que são constantemente lembrados (e bem!) a seu propósito (o voyeurismo, o virtuosismo técnico, o significado dos detalhes, a amostragem de caracteres psicológicos...). Sucede que, simplesmente, fiquei ainda mais fascinado por Grace Kelly e estou como que hipnotizado por tanto beleza... É a beleza, sim, mas que vai além do corpo e cara de perfeição absoluta, abrangendo também: a extrema elegância dos gestos e maneirismos; o arrebatamento sem jamais perder a classe; as toilettes de extremo bom-gosto; a decidida femininalidade do gosto por futilidades como a moda. Alguém escreveu que a primeira cena em que Grace Kelly aparece é um marco na história do cinema - a sua face aparece esplendorosa para beijar James Stewart. O erotismo explícito, massivo, do cinema mais contemporâneo perde grotescamente perante cenas como esta. Nos anos 50 o cinema alcançou a forma mais magistral de fazer chegar a beleza de uma mulher à tela! Note-se, finalmente, que este foi um dos últimos filmes de Grace Kelly antes de cair nos braços do Príncipe Rainier.
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segunda-feira, janeiro 09, 2006

Musseque (2)

Le Grand Méchant Zouk (1989)
Nos finais dos anos 80 irrompeu uma novidade: o Zouk. Não foi a única novidade afro a alcançar notoriedade. Por essa altura também o Soukous, congolês, chegou à Europa, do mesmo modo que a música do maliano Salif Keita ou do senegalês Youssou N'Dour. Foram os primeiros tempos do que se designou World Music, que assentou muito nestas descobertas africanas. Contudo, nesta vaga, foi o Zouk que alcançou mais impacto. Libertou-se dos limites da World Music e alcançou sucesso comercial. Foi um fenómeno cujo epicentro esteve em França, mas, cuja origem está nas Antilhas, concretamente em Martinique e Guadeloupe - departamentos franceses do Ultramar. Essa parte adjacente das Américas, povoada por descendentes de escravos, é, em muitos aspectos, onde se pode encontrar alguma da mais criativa africanidade...
O Zouk desenvolveu-se à custa do grupo Kassav', de tal modo que o início da história do género se confunde com o grupo. Os seus primeiros álbuns, gravados ainda nas Antilhas, não estão contaminados pela técnica que converteu o género numa bomba de alta potência para as pistas de dança. Neste álbum temos uma boa parte da trupe que foi constituindo os Kassav' (o grupo foi sempre numeroso e conheceu muitas alterações na sua composição). É uma antologia de gravações efectuadas em espectáculos realizados em França, sob a batuta do produtor Didier Lozahic. Participam Georges Decimus; Jocelyne Bérorad; Fréderic Caracas; Jacob Desvarieux; Jean-Philippe Marthély; Ronald Rubinel... Há um ambiente explosivo que reflecte bem como o Zouk é um género dançável por excelência, formatado de acordo com os gostos da juventude afro-europeia. Não por acaso, transformou-se instantaneamente em sonoridade da moda entre as comunidades de jovens africanos dos subúrbios de grandes cidades europeias (Lisboa, inclusive). Aqui temos três temas que podem ser tomados como exemplo de ritmo ultra-frenético: Balancé; Mwn Malad Aw; Zouk lá cé sel Medicament nou ni (o idioma mais comum no zouk é o criolo francês da Martinique e Guadeloupe). Contudo, o tema mais notável é um que, sem deixar de ter algum desse ritmo, se desenvolve num plano mais melódico - L'Amour Reciproque, de Ronald Rubinel. Por esta amostra apercebemo-nos que os finais dos anos 80 foram mesmo os tempos de esplendor (curto, mas intenso) do Zouk. Em breve, o género foi perdendo frescura e originalidade.
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