quinta-feira, dezembro 29, 2005

Vintage (4)

A Família Bellamy (Upstairs, Downstairs) (Série I e II)
Nos tempos em que a televisão ainda não se tinha tornado tão desgraçadamente democrática era mais fácil produzir séries com a qualidade de Upstairs, Downstairs (Desabafo: ninguém de bom senso pode ignorar que, em muitos aspectos, democracia é sinónimo de mau gosto e ineficácia...). Se é certo que, apesar de tudo, a TV actual continua a fazer produções de qualidade, não é menos certo que estas têm agora menor visibilidade e chegam a mais escasso público. Os anos 70 talvez tivessem sido os anos de apogeu da televisão. Esta série é um argumento para sustentar tal tese. Seja como for, foi com produtos deste calibre que os ingleses adquiriram a fama de ser os mais exímios criadores de séries televisivas de qualidade. Algo que, note-se, não se restringia à BBC. Esta, por exemplo, foi da responsabilidade da London Weekend Television, que integrava o consórcio de emissoras privadas ITV, liderada pela Granada TV.
Nunca mais me esqueci da série, que seguira com devoção. Não me esqueci, sobretudo, das figuras do mordomo Hudson e da cozinheira Bridges. Revista agora, trinta anos depois, a série adquire mais atractivos. Ressalto, por exemplo, o encanto dos valores sociais não contaminados pelas ideias igualitaristas e socializantes, nomeadamente a noção de hierarquia, respeito e etiqueta. O mundo da criadagem tinha uma noção precisa do seu lugar no mundo, com uma esmerada ética servil, que não deixava de conter um certo orgulho. Algumas reflexões e advertências do mordomo Hudson, da cozinheira Bridges e, até, da criada de sala Rose denotam um sentido de realização pessoal através desses valores. Reflectem uma auto-consciência da função servil como peça de uma vasta engrenagem social, sem a qual, esta não funcionaria tão bem. Tudo isto é ilustrativo de como a sociedade inglesa de inícios do Século XX (a acção das Séries I e II situa-se antes da Grande Guerra de 1914-18) era uma sociedade liberal, mais marcada por valores aristocráticos do que por valores democráticos. Mas a genialidade consistiu não só em fazer chegar à ficção televisiva a realidade da sociedade inglesa dos tempos eduardianos, mas fazê-lo através de uma abordagem com envolvência humana, utilizando uma linguagem de emoções e valores que soube tocar todos os públicos.
De notar que há no DVD um documentário com interessantes informações, assim como há um sítio exclusivamente dedicado à série (The Upstairs Downstairs Web Pages) com informações extensas e detalhadas. Definitivamente, é uma série de culto...
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segunda-feira, dezembro 26, 2005

Tiro ao Alvo (5)

Livro: Jacques Barzun - Da Alvorada à Decadência: De 1500 à actualidade. 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente (2000)
Ando sempre com um livro entre mãos. Pode ser um romance. Pode ser algum compêndio de estatísticas sociais ou futebolísticas... Mas, com maior frequência, pode ser um livro de história e... pesado. É o caso deste, com quase 900 páginas e capa dura. Aqui na Amadora, no Pigalle ou na esplanada do Rovidi estaciono amiudadas vezes para beber o café da praxe, mas o mais importante é a leitura no meio do ruído ambiente. O que mais vezes me entretém são jornais, mas muitas vezes é este tipo de leituras que me faz companhia. Resulta para mim divertido estar, por exemplo, embrenhado no significado político das regras de etiqueta da corte de Luis XIV, enquanto ao meu lado um velho casal na sua rotina quotidiana de peregrinação à bica, faz o enésimo comentário amargurado à ordinarice de uma piada do Herman... O exemplo até vem a propósito desta notável obra de um velho intelectual francês americanizado e que em saudável desplante exalta a superioridade do Ocidente e dá pistas para entender a sua hodierna decadência. Nada de relativismos culturais; nada de lassitudes conceptuais! Barzun está-se nas tintas para o desgraçado intelectualismo da esquerda europeia com os seus absurdos complexos de culpa, com as suas construções estruturalistas. Durante quase 500 anos a Europa Ocidental foi uma civilização superior (como antes outras o foram, naturalmente...). Ainda hoje o é, apesar de tudo. É algo tão evidente que se torna axiomático. Já nem me refiro àquilo que, por exemplo, Braudel designava como civilização material, já que qualquer enunciado estatístico elementar o comprova, mas às mais elementares realizações da arte, cultura, ciência e técnica.... Além disso, temos aqui uma escrita historiográfica à boa velha maneira. É um história feita com gente e factos e não tanto com artificiosas construções mentais elaboradas em prol de alguma tese apriorística. Enfim, que bom ter livros destes para ler.
Jacques Barzun in Wikipedia

domingo, dezembro 25, 2005

Noites tropicais (9)

Laura Fygi - The lady wants to know (1994)
Gratíssima prenda de Natal esta! Na absurda dinâmica de prendas eis que, às vezes, caem coisas verdadeiramente importantes no sapatinho. Não conhecia Laura Fygi até há pouco. É holandesa e canta sobre repertórios cuidados e submetidos a tratamento jazzy. Não percebo porque outras vozinhas femininas muito jazzy e mutíssimo in têm uma projecção superior. Ou melhor, percebo, mas... é insensato. Em primeiro lugar, esta holandesa moreníssima (e belíssima!!!) tem uma voz fantástica - quente e grave, com um travo amargo. Das melhores que já me foi dado escutar! Depois, tal como se nota neste álbum, tem um repertório sábio que se espraia até onde as suas qualidades vocais podem ser ainda mais valorizadas. Predomina um clima de bossa-nova que impregna até muitos standards que marcam aqui também avultada presença. Como cereja no topo do bolo temos aquele que para mim é um dos melhores boleros de todos os tempos - Sabor a Mí, de Álvaro Carrillo. Que dizer deste Sabor a Mí na voz de Laura Fygi...? É demais! Enfim, neste Natal tão triste para mim, eis algo que me aconchega um pouco a alma...
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sábado, dezembro 03, 2005

Boulevard nostalgie (20)

Christophe Barratier - Os Coristas (Les Choristes) (2004)
Eis um filme bonito que mereceria maior divulgação. É certo que não se pode dizer que seja um argumento original, mas a dedicação de um educador a um grupo de rapazes maus é um tema inesgotável.
No exercício das minhas funções de professor sigo uma espécie de máxima: jamais mercenário; jamais missionário! Contudo, a verdade é que no nosso sistema de ensino tão decadente e desorganizado, se não fosse a existência de algumas almas missionárias (ou quase) distribuidas por tantas escolas, as coisas seriam muito piores... Mas voltando ao filme. Há hoje a tendência para valorizar a originalidade e a ousadia, o que se compreende, porque a originalidade vai-se esgotando. Porém, as fórmulas convencionais continuam a suscitar muitos dos mais interessantes filmes. Não me estou a referir tanto ao rosário de sequelas com que a indústria de Hollywood vem abastecendo o mercado - muitas delas francamente oportunistas. Refiro-me, sobretudo, a cinematografias cada vez mais periféricas - a francesa é um bom exemplo. É certo que o cinema francês tem-me apresentado alguns dos filmes mais aborrecidos (muitos discursivos e intelectualizados), mas também, por outro lado, alguns dos mais interessantes. Este foi uma óptima surpresa!
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quinta-feira, dezembro 01, 2005

Boulevard nostalgie (19)

Robert Doisneau - Rue d'Alésia (Paris, 1968)

Robert Doisneau - Quai Branly (Paris, 1961)

Robert Doisneau - La Dernière Valse du 14 juillet (Paris, 1949)

Robert Doisneau - Les Enfants de la place Hébert (Paris, 1957)

Robert Doisneau - Les Amoureux aux poireaux (Paris, 1950)

Robert Doisnesu - Créatures de Rêve (1952)

Robert Doisneau - Baiser Blottot (Paris, 1950)